segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A PERERECA APAIXONADA


Enquanto isso naquele boteco, dois frequentadores comentavam sobre o carnaval...

- Que saudades dos carnavais de antigamente. Naquele tempo é que era bom
- Ah. Não sei não. Acho que hoje o pessoal tá mais evoluído
- Mas que evoluído? Já viu essas músicas que eles tocam hoje em dia? Não tem letra, não tem poesia.
- Ah...antigamente também tinha aquelas da cueca pra fazer pano de prato. Quer mais nojento?
- Ah...mas pelo menos  você ouvia uma marcha rancho falando de amor...hoje só tem sacanagem.
- Mas naquele tempo também tinha sacanagem, sô. Tanto que 9 meses depois nascia muita gente...
- Mas havia mais respeito...você não via as mulheres semi nuas rebolando nas ruas mostrando tudo.
- Mas nem por isso se transava menos. Quando dois querem dão um jeito, sô.
- Ah não. Você tá liberal demais. Só falta dizer que gosta desses funks . Tem esses sertanejos também. Deviam proibir de tocar essas coisas...
- Tem até cidades que estão proibindo funk e axé. Só toca as marchinhas de antigamente. Eu acho um porre.
- Um porre por que?
- Ah...fica um carnaval de velhos, o bloco da geriatria. Tem de renovar mesmo. É a roda da vida girando...
- Ah...eu por mim mandava prender quem tocasse essas bandalheiras. É demais para as famílias.. Agora você vê bem. Esse ano tem um funk que tá falando uma besteira que eu tenho até vergonha de falar.
- Eu já sei. Aquela do “meu pai te ama né”?
- Meu pai é o que você está dizendo...você sabe do que estou falando.
- Caretice sua. É até romântica a letra. Quando o sujeito diz “meu pau te ama” está chegando ao ápice do romantismo. Muitas mulheres e  gays devem adorar. É uma linda declaração de amor.
- Quem nem o Lepolepo né? Cada ano uma pior que a outra. E pior é que tem gente para apoiar como você...
- Mas eu amo o carnaval. Aceite que dói menos. O carnaval é a festa da carne, da brincadeira, da sátira, do beijo na boca, da sacanagem, do desbunde, da cultura, um grande teatro popular onde todos atuam. Não cabe moralismo.  
- Eu acho que você tá liberal demais. Tô te estranhando. Até parece que virou...
- Virei o que? 
- Você sabe
- E se eu virar? Vc deixa de ser meu amigo?
- Deixar de ser não...mas vou passar a olhar diferente .
- Não sei não, viu amigo. Essa caretice toda é que me parece sexualidade reprimida.
- Que isso, sô...eu sou espada.
- Então vamos sair fantasiados de mulher no carnaval. Depois de umas e outras na cabeça quero ver se essa macheza sobrevive.
- Cruz credo. Nem morta...quer dizer, nem morto.
- Aháá...ato falho hein?
- Você não vai me convencer. O carnaval de antigamente é que era bom e ponto final
- Bom, eu prefiro as reticências. Antigamente não tinha internet, as músicas eram muito caretas, as mulheres muito vestidas, os homens eram uns capiaus e era tudo muito proibido.
- Proibido?  O Lança-perfume por exemplo era liberado. Depois é que resolveram proibir tudo e o mundo encaretou.  
- É. Nisso vc tem razão. Mas aqui...pra você não ficar triste, acaba de sair a resposta para aquela música “meu pau te ama”. 
- Ah é? E como é o nome da música?
- Perereca apaixonada. O amor é lindo...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

NETO E VÔ FILOSOFANDO NA PESCARIA

A beira da lagoa, Neto e Vô esperam calados e nada de peixe. De repente o menino resolve romper o silêncio...

- Ô vô ...
- Fala, Julim...
- Devia ter wifi aqui...tá um tédio.
- Fale baixo. Assim você espanta os peixes.
- Mas vô...eu ia poder jogar uns games...tem até um legal de pescaria....
- Que isso, minino. Conecte-se à natureza. Ouça os grilos cantando, o som das águas, os pássaros.
- Ih...vô. Eu tenho isso tudo salvo no meu celular.
- Não é a mesma coisa. O que você tem é cópia. O original é isso aí ó.
- Mas vô...é verdade que foi Deus quem fez isso tudo?
- É sim. Foi o criador.
- Mas vô...que Deus tá valendo?
- Como assim?
- Sabe o que é, vô? A nossa professora de geografia nos falou que os povos no planeta adoram deuses diferentes. Tem Buda, Khrisna, Jeová, Alah, Baal, Jesus, Javé, Maradona, uma deusada danada.
- Ah...mas no fundo é um Deus só. Cada povo faz segundo sua imagem e semelhança.
- Mas assim fica difícil da gente rezar. A gente tem de pensar em que?
- Uai. Como Deus foi feito a nossa imagem e semelhança, imagine que ele tem a sua cara. Reze pensando em você.
- Ah não, vô. Assim eu não gosto. Eu penso num velho cabeludo e barbudo usando uma bengala de ouro.
- Tá valendo. Deus vai ter a cara que você quiser.
- E os santos e anjos?
- Ahh...anjos são pessoas atentas pra te salvar na hora do aperto. E os santos são aquelas pessoas muito boas, que só fazem o bem.
- Mas vô...Deus é poderoso mesmo? Pode tudo?
- Para Deus nada é impossível.  
- Mas então por que não mandou botar wifi na lagoa?
- Por que isso não é tarefa pra Deus. E quer saber? Se a gente tivesse wifi aqui a gente não tava nem conversando.
- Vô. Parece que fisguei alguma coisa...veja...
- Legal...cuidado pra não machucar a mão com o anzol.
- Puxa, vô coitado do peixinho. É muito pequeno...deve ser um bebê peixe.
- Tem razão. Quer devolver ele pra água?
- Podemos. Mas primeiro vamos colocar um band-aid na boca dele.
- Bom...já tá caindo a noite...hora de ir embora...
- Que pena vô. A conversa tá boa. A última pergunta então...será que os peixes sabem que Deus existe?

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

CONSELHOS DO MESTRE


Enquanto isso, aquele discípulo consultava o mestre sobre as perspectivas para o futuro.

DISCÍPULO - Mestre, o que devo fazer para ser feliz?
MESTRE – É simples. Não se deixe atrofiar.
DISCÍPULO - Como assim não atrofiar, mestre?
MESTRE - O que a gente não usa atrofia. É uma lei universal
DISCÍPULO – Mas o que devemos fazer então?
METRE - Beije, chupe, morda, tateie, sinta o arrepio, se entregue ao cio da pele, sinta o sangue correndo nas veias, respire e inspire os aromas do mundo, transe, viva as delícias do sexo, pratique seu esporte preferido, toque um instrumento, nade, dance, use as potencialidades do seu corpo. E use sua mente fantástica, consulte suas memórias, viaje até o futuro e volte, conecte-se com o divino, medite, faça alongamentos, penteie os cabelos, ouça músicas, sinta a música, faça arte, faça parte, use-se e interaja com os afins.
DISCÍPULO - Mas mestre. Isso tudo exige que a gente desacelere. Como fazê-lo nesse mundo dominado pelo capitalismo e pelo consumo frenéticos?
MESTRE – Vivendo melhor com menos. Preenchendo o tempo com coisas mais prazerosas
DISCÍPULO – Mas não dá, mestre. Tudo que a gente faz custa dinheiro. A gente tem de trabalhar continuamente pra suprir as necessidades da família, da sociedade. E ainda temos essa crise que não acaba...
MESTRE – Mas ainda assim é necessário você parar e se beliscar, lembrar que está vivo.Usar-se não custa nada. Correr, caminhar, namorar, observar a natureza, as paisagens, respirar o ar puro sai de graça. Não é incrível isso? O espetáculo do por do sol é de graça.
DISCÍPULO - Tudo bem mestre. Mas como nos livrar da tecnologia digital que a cada dia nos torna mais ociosos e sedentários?
MESTRE – Mas você não precisa de se livrar da tecnologia. Deve usar a tecnologia mais avançada do planeta.
DISCÍPULO -Mas que tecnologia seria essa?
MESTRE - O seu próprio corpo. Use-o com responsabilidade. E agradeça a Deus, que lhe disponibilizou um equipamento tão sofisticado.
DISCÍPULO - Mas usando-o a gente evita a atrofia?
MESTRE - Sim. O que vc não utiliza vira estria, muxiba, ferrugem, vira pensamento fossilizado.

DE REPENTE UMA VOZ INTERROMPE A CONVERSA

- Amor, amor...
- Anhh...o que aconteceu?
- Você estava sonhando e falando sozinho...falando umas coisas estranhas...
- Ah é? não liga pra isso não...vem cá.
- Amor...que disposição é essa...vc andava meio devagar.
- É que assim eu não deixo o trem atrofiar...
- Enfiar aonde? Vai com calma, hein amor...que sonho foi esse? Eu gostei...aiiii....