sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

VAI FANTASIAR DE QUE?

Estou aqui sentado no passeio de uma grande praça em Alvinópolis. Arranjei uma namorada linda e estou nas nuvens. Me belisquei umas 5 vezes pra conferir e era verdade mesmo. Rosto lindo, lábios de mel e um beijo perfeito. E tudo aconteceu de forma inesperada. Sou advogado, bem sucedido, tenho uma vida bem estruturada e dizem que sou conservador demais. Eu estava fechando o escritório pra ir embora quando um amigo que faz a limpeza no prédio passou puxando papo...

- E aí?
- E aí o que?
- Vai fantasiar de que?
- Vou fantasiar de nada não. Detesto carnaval.
- Que isso. Carnaval é bom demais. Por 4 dias você pode ser o que quiser.
- Eu já prefiro eventos culturais, cinema, teatro, shows...
- Mas o Carnaval é uma festa cultural
- Cultural? Você quer dizer bacanal, né?
- Exagero seu. E vai me dizer que não gosta de dar uns beijos na boca?
- Ah tá. E esse monte de pessoas suadas abraçando a gente?
- Ah. A gente nem pensa nisso.
- Eu acho uma perdição.
- Que nada. Tem o lado bom. Tem um lado mágico. É como diz a minha namorada. É uma festa cultural. Tem cultura nos blocos, nas escolas de samba, nas fantasias. Tem um espécie de teatro. Carnaval é teatro. Cultura pura.
- Eu hein. As pessoas tomam todas e soltam as frangas. 
- É verdade. Tem muita gente que sai do armário no carnaval. Mas isso é bom também. Deixa a turma vestir de mulher a vontade.
- Nem se me matassem.
- Que isso, sô. Larga de ser recalcado. Carnaval é um descarrego de 4 dias. As pessoas tem licença pra viver qualquer fantasia.
- Eu acho muito perigoso. Sou um sujeito sério com uma reputação a zelar.
- Reputação? Reputação vem de puta...uma pessoa que foi puta reputando...kkk
- Engraçadinho hein?
- Relaxa, Doutor. Olha! Eu quero lhe fazer um convite. Venha passar o carnaval com a nossa turma numa cidade aqui pertinho. É Alvinópolis. Você vai poder se fantasiar do que quiser. Ninguém lá o conhece. Garanto que vai se divertir.
- Mas você vai quando?
- Agora mesmo. Vou pegar um ônibus daqui a pouco.
- Será?
- Claro. 
- Então tá bom. Mas eu vou me fantasiar de que?
- Uai. Você pode se fantasiar de você mesmo. 
- De terno e gravata? 
- Por que não?
- Vamos fazer o seguinte. Eu não ia fazer nada mesmo. Vou te levar lá de carro. Se eu resolver, paro pra tomar uma cerveja e venho embora. 
- Combinado. 

E fomos pra Alvinópolis. Lá chegando, meu amigo apresentou-se para várias pessoas. Comecei a tomar uma caipivodka e fui entrando no clima. Até que uma menina, a mais bonita da praça começou a me encarar...e foi se aproximando. Com pouco tempo estávamos conversando e ela me falou que adorou minha fantasia de homem de preto, mas que não ia aceitar que eu apagasse a memória dela. Ficamos por ali bebendo e brincando carnaval. Fui me soltando. A certa altura tirei os sapatos e guardei no carro. Acabei também tirando o terno, a camisa, e brincando no bloco, totalmente hipnotizado pela beleza da menina. O que ela pedisse, eu faria. E agora estou aqui na praça em Alvinópolis sentado, pensando em como a vida pode ser surpreendente. Minha namorada foi ali no bar pegar mais uma birita pra gente. Naquele instante ela chegou com mais uma caipivodka e me levou de volta ao paraíso com seu delicioso beijo. Meu amigo tinha razão. Carnaval é mágico...

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