segunda-feira, 28 de setembro de 2015

PRA BOM ENTENDEDOR...


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O AVÔ, O PAI E O FILHO...


        O avô, o pai e o filho conversavam na praia.

- Não sei. Acho que o gosto musical piorou muito.
- Eu concordo. A música não tem mais conteúdo.
- Mas pra que conteúdo? Se eu quiser conteúdo eu leio um livro...ou vejo na internet.
- Que isso. Música boa mesmo era o bolero. Lindas melodias e a gente dançava coladinho.
- Bolero também é muito, né pai? Bom mesmo era o rock dos anos 70 e oitenta.
- Que bobagem. A música se renova.
- Se renova e piora. Não dá nem pra comparar. No meu tempo tinha Frank Sinatra, tinha Nat King Cole, Gleen Miller, Ray Coniff.
- Menos, né papai? Não dá pra comparar é com meus tempos, dos Beatles, do Rolling Stones, Pink Floyd, The Doors, depois Nirvana, Pearl Jam, Metállica, Iron Maden...
- Ah...boa mesmo é a MC Pocahontas. Vocês conhecem?
- Nunca ouvi falar.
- Nem eu.
- Então vejam o clip dela no meu celular...olhem só.
- Nossa. Muito boa mesmo. Quer dizer...a música né?
- Não fica vermelho não vô. Ela é uma cavalona mesmo.
- Mas não tem música ai. Só sexismo.
- Tá bom, viu, pai. No tempo do senhor tinha Madonna fazendo um monte de servergonhice também e vocês achavam bonito.
- Meu filho. Definitivamente. Na minha época tinha Madonna que usava desse artifício. Mas também tinha o genial Michael Jackson. Não dá pra comparar.
- Pai. Hoje em dia temos uma dupla sertaneja nova de sucesso a cada 15 dias. É bom que a gente não enjoa. Mcs e músicas de funk, tem uma nova todo dia. A gente não tem de ficar ouvindo uma coisa só. No tempo seus é que tinha disso, de ter de tocar pro povo gostar e comprar. Hoje ninguém mais compra música.
- Mas o que vai ficar dessa geração para a posteridade? Ninguém vai guardar nada.
- Fica guardado sim. Hoje tem tudo na internet pra você ouvir na hora que quiser.
- Ah. Mas não tem mais um Bienvenido Granda, uma Connie Francis, Dolores Duran, um Nelson Gonçalves.
- Pois é. Tem bandas de rock que ainda estão na ativa. O Rush ainda é uma das maiores bandas em atividade. O Yes tá na ativa com os melhores. O Queen também está se apresentando pelo mundo. O Pink Floyd é que parou, mas o David Gilmord tá na ativa. Sua geração não será capaz de gerar uma safra tão rica.
- Pode ser, viu pai. Mas também não vamos viver assistindo shows de bandas museus. Fiquem pra vocês.
- Que isso, menino. Eu gostaria muito que você ouvisse algumas músicas dos meus tempos. Conhecer um Agostinho dos Santos, um Altemar Dutra
- Eu também queria que você conhecesse a riqueza do rock brasil, do rock internacional, da MPB, do Jazz. Sabia que tem até cursos?
- Quem sabe um dia, né? Mas por enquanto não vai rolar não. Preciso estar atualizado pra fazer bonito com as novinhas. Agora vocês vão me dar licença que eu vou encontrar com a turma.
- Onde você vai?
- Vai ter uma resenha na praia e depois vai rolar um showzinho com uma MC ai.
- E qual o nome dessa MC?
- MC Ririca.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

CIANURETO COM NITROGLICERINA



Enquanto isso naquela clínica psiquiátrica, dois internos conversavam...

- Quem é você?
- Não sei. Acho que surtei. E você?
- Eu também.
- Mas como foi o seu caso?
- Eu sou uma pessoa que recuperou a memória.
- Memória de que?
- Memória do homem, da sua ancestralidade mais remota...
- Mas o que será isso? Algum tipo de psicografia? Você se comunica com os espíritos?
- Eu bebo da fonte primordial, da luz da vida.
- Você está falando de Deus?
- Não sei se Deus é um nome adequado. Cria uma hierarquia.
- O que seria então?
- Quem dera eu soubesse. Sei que extrapola os Deuses terrenos. Vai além do homem.
- Então acredita nos Deuses astronautas?
- A vida está em diversos pontos do universo.
- Mas o que faz a terra tão especial?
- É viveiro de muitas espécies. E tudo que vive tem alma. A alma não é privilégio humano.
- E você acredita em reencarnação?
- Eu vivo isso. Acabo de recuperar memórias ancestrais. Isso inclui vidas passadas,
- Mas não tem uma religião?
- Tenho à minha maneira. Acredito que todas com seus rituais, moralidade e ensinamentos podem ajudar as pessoas a se conectar com boas energias. O problema é que também são usadas para dominar e até para justificar guerras e carnificinas.
- Então você fica em cima do muro?
- Em cima, não. Acima. A gente precisa flutuar, voar acima e não se perder em labirintos.
- Mas você está aqui, nesse hospício.
- Estou porque quero.
- Sabe que eu também?
- Estou aqui porque fui tomar um chá de um raizeiro que o pessoal estava dizendo que era bom pra sabedoria. Foi aí que recuperei toda a memória. Acordei aqui. Minha família me internou, pois me encontrou catatônico, sem brilho nos olhos. O estado catatônico durou 4 dias.
- Eu acredito. Eu estou aqui porque percebi que meu patrão ia me mandar embora. Então simulei um treco Sabe o que é dar um treco? Eu fingi que não falava nada com nada, falando tudo embolado. A menina da segurança tratou de pedir pra me examinarem. Deram-me uns remédios legais. Fiquei doidão. Depois fiquei 4 dias tipo autista. Sem falar nada. Estou afastado.
- Mas corre perigo. Não poderá adiar pra sempre...
- Você é que não me conhece. Sou ótimo ator. Sei fingir bem. Se bobear consigo aposentar.
- Boa sorte. Obrigado viu? Estou indo embora.
- Mas espere aí...mas como assim indo embora? Você está com telefone celular...você gravou a nossa conversa?
- Sim. Me perdoe mas é a vida.
- Espere aí?
- Tem você confessando que tá fingindo doença. Perdeu, irmão.
- Seu FDP...então aquela conversa era papo furado?
- Criativo né? Tem um sujeito que escreve esses textos pra nós.
- Mas o que você ganha com isso?
- Nunca ouviu falar em Delação Premiada?
- Que pilantra. Ganhou minha amizade, puxou minha língua e me esfaqueou.  
- A República precisa dos delatores.
- Será você uma reencarnação de Judas, Joaquim Silvério dos Reis?
- O Clube dos delatores? Tem o Roberto Jefferson também e os outros que vão trairando uns aos outros.
- Vamos fazer o seguinte: dou 5.000 nesse celular...
- 7.500,00 e ele é seu.
- Me dê ele aqui...
- Mas como garante que eu vou receber o dinheiro?
- Vamos entrar no homebanking e transfiro aqui na sua frente...
- Negócio fechado...transfira então para que eu veja...
- Então vamos lá...internet boa hein? Numero agencia, número de conta senha...ok. Agora o número da sua conta...pronto...transferido.
- Beleza. O telefone é seu. Agora vou embora.
- Mas espere aí. Não pode ir embora. Não tem mais o telefone.
- Mas eu tenho meu relógio que também grava. Valeu, viu?
- Fdp...
- Aqui...tô deixando um chazinho pra você tomar. Se quiser se arriscar...
- É aquele chá que você tomou?
- Não. É cianureto com nitroglicerina.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

ANTES COVER DO QUE OVER

Enquanto isso naquele boteco...

- Eu não aguento mais isso. Quando não é sertanejo é banda cover. Que coisa horrível.
- Ah..preconceito bobo. Pelo menos os cover tocam músicas que a gente conhece.
- Eu prefiro bandas originais, que tem uma marca, uma expressão própria.
- Eu não tenho paciência com músicas desconhecidas.
- Cara! Cover é imitação...e mal feita. É que nem cópias piratas paraguaias.
- Grande bobagem. Tem cover que é melhor que o original, sabia?
- Vou fingir que nem ouvi.
- É sério. Já ouviu o U2 Cover? O cara canta mais que o Bono.
- Era só essa que faltava.
- Olha só. O Pink Floyd acabou, mas tem uma banda cover do Pink que toca igualzinho. É uma forma de preservarmos as boas bandas, pois os caras ficam velhos e morrem.
- Isso quando não morrem de overdose aos 27.
- Pois é.Você já ouviu o The Doors cover? É muito boa. 
- Em termos de bandas coverizadas nenhuma ganha dos beatles. Só no Brasil deve ter umas 300. 
- Por isso é que eu acho legal as bandas covers. Você não pode contratar o Iron Maden original, cujo show deve custar milhão, mas pode contratar o Iron Cover, que custa tostão. 
- Mas isso é ruim porque não há renovação. Fica esse tanto de covers gozando com p* dos outros. Fora as bandas museus, com os ídolos já decadentes vindo pra shows caça-níqueis na américa do sul.

Nisso entra uma outra pessoa na conversa

- Amigos, amigos. Posso dar uma opinião nessa conversa de vocês?
- É claro.
- Como criticar os covers se somos um país cover?
- Como assim?
- Por que desde o início imitamos outros países. Primeiro imitamos os portugueses e nos tornamos um império. Depois imitamos os americanos e nos tornamos uma república. Agora ficamos tentando imitar a China e a União Soviética e flertamos com o comunismo. 
- Não é que você tem razão? Mas o que podemos fazer pra não sermos mais um país cópia da cópia?
- Criar uma ideologia própria, baseada na sustentabilidade, no cuidado com a natureza, com indústria limpa, tecnologia em consonância com o desenvolvimento humano, consumo consciente.
- Ah. Me desculpe mas o que propõe é uma utopia. Isso não vai acontecer nunca.
- Não vai acontecer por que fomos invadidos culturalmente e nos obrigam a imitá-los em tudo. Na música, na roupa, no comportamento. Ficamos arremedando holywood. 
- Mas como você disse, tivemos outros invasores. 
- Claro . Somos um país pilhado por corsários de várias bandeiras.Os invasores portugueses tiveram o desplante de desprezar a cultura dos índios e de nos batizar com vários nomes: Terra de Santa Cruz, Vera Cruz, até chegar ao Brasil, isso por causa do pau Brasil que nem existe mais.   
- Mas o que você sugere? Que voltemos a nos chamar Pindorama?
- Pelo menos iríamos voltar à nossa trilha original...de desenvolvermos nossa pindoraminidade...
- Isso não vai dar certo!
- Por que? 
- Imagine um jogo da seleção sem o Brasil, il, il, il....?
- É tem razão. Melhor deixar como está. E quer saber? Antes cover do que over. 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

VIVA O FLUXO...

Diziam que o Garrincha não poderia jogar bola. Belchior, Beto Guedes, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto e Bob Dylan não deveriam ser cantores pois tem vozes de pato. Como o Lula chegou a presidência com aquela cara e aquela voz de taquara rachada? Como é que o Tiririca virou celebridade nacional e até deputado? Há milhares de casos. O problema de quem não chega é acreditar que não pode. Se realmente não puder e não conseguir serão contingências. Se não tentar será covardia e exílio na zona de conforto. E há os perigos das paralisias momentâneas, da interrupção do fluxo. Fluxo interrompido é infarto. Dizem que água parada dá doença. Então vamos desobstruir e aumentar a pressão. E viva o fluxo...

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

MISÉRIA VOLUNTÁRIA

Enquanto isso naquela praça...

- Amigo, me desculpe. Eu tava reparando aqui. Você está lendo jornal de ontem? 
- Você é observador hein? É verdade!Todos os dias tem um moço que passa aqui as 7:12 da manhã. Ele pega o jornal novo que o jornaleiro deixa, vai até aquela lixeira ali, dá uma últimas olhadas no jornal velho e o dispensa na lixeira. Eu espero um pouquinho, vou lá e pego. O bom é que ele não desorganiza. Detesto jornal desorganizado, amassado...
- Você não acha mesquinho ler um jornal que o outro dispensou mas pagou por ele?
- Eu não acho não. É reciclagem, informação compartilhada.
- Mas as notícias são de ontem...
- Ih...não tem importância. São as mesmas notícias requentadas.
- Sei. O que o sr faz? É professor? Sei lá...um escritor?
- Não. Eu sou um mendigo.
- O que? Ah...você está brincando...
- Mas pra que eu iria brincar com uma coisa tão séria? Olha o meu chapeuzinho de pedinte. Bonito né? Se quiser dar a sua contribuição...
- Esse mundo tá perdido mesmo.
- Qual o problema. Só por que eu não visto roupa rasgada e não sou fedorento nem barbudo não tenho o direito de ser mendigo? Eu sou um mendigo diferente. Um bomtrapilho.
- Bomtrapilho? Só me faltava essa...
- Sou um mendigo light. Tomo banho todo dia, escovo os dentes, lavo as minhas roupas...
-  Puxa, mas não dá pra entender. Por que você virou mendigo?
-  Ah...fiquei de saco cheio de ser um sujeito normal, trabalho normal. Eu ganhava algum dinheiro mas não tinha tempo de viver. O que eu ganhava nunca dava pra pagar as coisas que eu queria. Eu estava ficando louco. Tinha um patrimônio razoável. Vendi tudo, paguei as dívidas, passei o dinheiro pra minha esposa e filhas, rasguei a identidade, o cpf, sumi no mundo e virei mendigo. 
- Mas onde você dorme?
- Durmo por aí. Tenho uma barraca arrumadinha. Monto ela cada época em algum lugar e vou levando a vida. 
- E como faz pra almoçar, necessidades básicas...
- Olha só. As coisas até melhoraram pra nós. Hoje em dia tem uns programas do governo, tem cesta básica, tem abrigos que dão um bom suporte aos mendigos. A única coisa ruim é que tive de refazer documentos para receber alguns benefícios. Mas tudo bem.
- O mais interessante é que você realmente não se parece com um mendigo. A gente tem esse estereotipo na cabeça.
- Só é sujo e maltrapilho quem quer. Tem vários lugares, tem uns abrigos padrão fifa, tem os shoppings que tem banheiros públicos. Quem anda apresentável é bem recebido em qualquer lugar.
- Mas peraí. Mas você ainda se diz mendigo, né? Quer dizer...pede dinheiro as pessoas na rua...não é isso?
- Mais ou menos. Eu coloco o chapéu no banquinho. Esse chapéu que você está vendo agora. 
- Mas não vai me pedir dinheiro?
- De jeito nenhum. Você só ajuda se quiser.
- E acha que vai me seduzir com esse chapeuzinho?
- O chapéu não convence ninguém. O que vale á a boa conversa.
- Tá certo então. Então me responda uma pergunta que coloco 50 reais no seu chapéu.
- Manda...
- Qual o sentido da vida?
- O sentido da vida é o futuro. O presente já é passado. Vamos fazer o amanhã...
- Filosofou legal.
- Só respondi a sua pergunta.
- Toma aqui seus 50 reais.
- Obrigado. Vou botar créditos pra usar internet no meu tablet. Vou criar um blog pra contar minhas histórias. 
- Posso te sugerir um nome?
- Manda.
- " O MENDIGNO". 
- Já é !!!

(Tenho uma música que conta mais ou menos essa historinha em versos. Quem quiser ouvir é http://palcomp3.com/solofertilmartino/miseria-voluntaria/)