sexta-feira, 24 de abril de 2015

COMO SOFRE UMA PRINCESA...


Enquanto isso, num reino distante...

- Meu príncipe, você me ama mesmo?
- Princesa. Eu vivo por você. Eu respiro por você. Eu só penso em você.
- Meu príncipe. Você me ama?
- Você é meu tudo, Princesa, meu sol, meu mar.
- Mas eu quero que você diga que me ama...
- Pra que?
- Pra gravar aqui no meu celular, pra ficar ouvindo à noite. É tão difícil pra você dizer eu te amo?
- De jeito nenhum princesa. Você sabe que sou tarado por você. Essas suas ancas, esses seios voluptosos...
- Meu príncipe. Isso é outra coisa. Isso é sacanagem. Eu tô falando de amor.
- Pois é. Fazer amor...não tem nada melhor. 
- Ah...não adianta. Vocês homens não entendem...
- Nós não entendemos o que?
- Não entendem que a gente precisa ouvir o "eu te amo" por parte da pessoa amada pra gente se sentir segura. É pedir tanto assim?
- Ok...
- Então vai dizer? Espere que vou gravar. 
- Besteira sua...
- Como assim?
- Um príncipe se declarar não significa muita coisa. Já vi príncipe que se declara e dez minutos depois já estão chifrando as pobres princesas.
- Já vi que você não me ama...
- Que isso, Princesa. Eu faço qualquer coisa pra trans...quer dizer, pra beijar você. Você é minha rainha. 
- Faz qualquer coisa mesmo?
- Claro. Eu não vivo sem você...
- Então tá bom. Já que você está disposto a qualquer coisa para meter, quer dizer, pra me ter...venha se encontrar comigo essa noite no nosso castelo.
- Sério? Você estará sozinha lá?
- Sim. Sozinha e todinha pra você...
- Então eu vou lá. Pode contar com isso...
- Só tem um probleminha...
- Qual problema?
- Você vai ter de enfrentar o dragão da família. Meu pai vai jogar canastra com a minha mãe no castelo dos Alcântaras e solta o dragão pra tomar conta do castelo.
- Dr-agão? Mas ele é bravo?
- Depende. Ele sente o cheiro do sujeito. Se ele sentir que o sujeito me ama, ele deixa entrar sem problemas. Mas se for um príncipe tarado que só quer se aproveitar dessa princesa sexy, ele carboniza na hora.
- Eu não tenho medo de nada. Pode esperar que eu estarei no seu castelo as 8 horas.

À noite a princesa tomou seu banho, pegou aquele perfume guardado para as ocasiões especiais e preparou-se pra esperar o príncipe encantado. Ele por sua vez, até passou de carro perto do castelo. Mas quando olhou por cima do muro e viu o dragão mandando fogo pelas ventas entrou no carro e foi pro castelo do seu sensível amigo, o Príncipe Denner. 

A princesa ficou esperando, esperando, esperando, até que percebeu que seu príncipe se desencantara. Foi quando viu um sapo em seu jardim e teve uma ideia maluca. Chegou pertinho e pegou o danado no colo. Olhou praqueles olhos esgugalhados e tomou coragem: lascou um beijo na boca do sapo. Mas para seu desespero, ele não virou príncipe. Que nooojo! Como sofre uma princesa...







sexta-feira, 17 de abril de 2015

ADIAR EXAME DE VISTA É UMA FRIA


Ele já não enxergava direito, mas como não gostava de dar o braço a torcer, continuava levando a vida e fingindo que conseguia fazer tudo e que enxergava com perfeição. Dos jornais,só lia as manchetes. Digitava seu celular com grande dificuldade e as vezes enviava mensagens criptografadas, em línguas desconhecidas. Ele ia se enganando, até que dois fatos o fizeram perceber que não dava mais, que teria de dar um jeito nas vistas cansadas e embaçadas. A primeira coisa foi que começou a tropeçar e a derrubar objetos ( o celular já tava um caco) e já começava também a não reconhecer as pessoas. A segunda coisa foi a mais traumática. Ele jogava 5 números há 8 anos na loto e finalmente os números que ele marcava deram na cabeça, só que ele errou um quadradinho, marcou no lugar errado e perdeu 800 mil reais. Ele teve vontade de arrancar os olhos com as mãos, ficou deprimido e enfim resolveu tomar uma atitude: pegou o catálogo do plano de saúde, discou para o telefone do primeiro oculista que encontrou e marcou consulta. O consultório ficava num prédio que conhecia no centro da cidade. Ele conseguiu marcar a consulta, pegou o ônibus e chegou direitinho. Lá chegando, teria de se dirigir à sala 307. Ele chegou, pegou o elevador para o terceiro andar e foi olhando as plaquinhas das salas, até encontrar o número 307. Lá chegando, encontrou uma recepcionista que nem conseguiu saber se era feia ou bonita. 

- Boa tarde. Tenho uma consulta as 15:00 horas?
- Com o Dr, Armando né? Só um minutinho que ele já vai atendê-lo.

Ele ficou ali aguardando enquanto tentava ler os diplomas do Dr.Armando. Mas o trem tava feio. Ele precisava de óculos mesmo.

- Sr Jairo! O senhor poder entrar, por favor ( disse o Dr Armando).
- Obrigado.
- Eu tô vendo a ficha do senhor. Tem 52 anos né?
- Sim.
- Mas qual o problema do senhor?
- É no olho, Dr Armando. O senhor sabe como é né? Com o tempo dá problema
- Tá certo, sr Jairo. O senhor pode tirar a roupa e deitar naquela maca, por favor.
- Pois não.
- Enquanto isso vou preparando o seu exame.
- Tá certo, Dr. Armando. Eu demorei muito a vir né? Devia ter visto antes.
- Pois é. Mas por favor, deite de costas na maca.
- Tá certo. Mas Dr Armando...se eu tivesse vindo antes, teria evitado muitos problemas né?
- É verdade. Mas por favor. Fique quieto que não vai doer nada.
- Mas Peraí! Por que me mandou tirar a roupa? Esse exame tá muito estranho... que que é isso Dr?...Aaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. 
- Que isso. Calma. O senhor tem de ficar calmo.
- Mas que ficar calmo o que...eu vou consultar com um oculista e você vem com esse dedo comprido...
- Mas peraí...eu não sou oculista. Sou o Dr Armando. Proctologista.
- Eu sabia que tinha uma coisa errada. Maldita vista ruim.
- Mas pense pelo lado bom. Você fez um exame que todo homem tem de fazer mesmo.
- Pois é. Só que eu era virgem, né? O senhor devia ter perguntado.
- Uai...eu perguntei. Você falou que era no olho. Pensei que o senhor estivesse brincando e que seu problema fosse no olho do...
- Pode parar por aí...e não conte a ninguém que estive aqui, viu?
- Pode deixar. E se quiser indicação de um oculista, tem o Dr. Vitor...na sala 312.
- Tá certo. Eu vou dar uma chegadinha até lá. 
- Eu anotei aqui pra você aqui a sala, o telefone dele, tudinho...e em letras grandes pra não ter erro. 
- Bote aí também o seu número de telefone, whatsapp.
- Pra que?
- Vai que me dá uma saudade...

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ENQUANTO ISSO NO CONFESSIONÁRIO...


- Padre, eu pequei.
- Você é humana minha filha, todos erramos.
- Mas Padre, eu fiz aquilo que não podia fazer.
- É o livre-arbítrio. Você pode até fazer, mas paga as consequências.
- Eu fiz o que não devia. Fiz amor com meu namorado.
- Você o ama?
- Sou apaixonada por ele.
- Paixão antecede o amor. Você só sabe se é amor quando a paixão acaba.
- Pois é. Eu avancei os limites. E agora? O que é que eu faço?
- Calma. Como isso foi acontecer?
- Ele estuda história. No começo estávamos só nos beijinhos. Mas ele me chamou pra ir na casa dele pra estudar história. Veja só a estória. Falou dos livros sagrados da Índia. Eu sempre gostei muito daquelas batas indianas e de incenso, sabe?
- Continue...
- Sabe o que ele queria estudar comigo?
- O que?
- O Kama-sutra.
- E você aprendeu?
- Sempre fui uma ótima aluna, né Padre.
- Mas por que está arrependida? Não foi bom?
- Aí é que tá, né Padre. Dizem que uma menina nunca deve fazer amor muito rápido com o rapaz, pois ele perde a motivação da caça e parte pra caçar outras meninas.
- Minha filha, o proveito é mútuo.
- Como assim, Padre?
- Ele se aproveitou de você, você se aproveitou dele. Se for amor, vai sobreviver. Se não for, vai queimar rápido como fogo de palha.
- Então...o que acha que devo fazer?
- Quer saber mesmo? Valorize-se. Vá num bom salão e dê uma caprichada nos cabelos, na maquiagem, tire umas fotos legais, saia pra rir com as amigas, dê uma focada nos estudos, fique com quem tiver vontade, siga a sua vida, do jeito que for. Mas não deixe ninguém te engaiolar. Seja dona de si.
- Mas Padre, então eu não pequei? Não vai me pedir pra rezar 3000 aves marias, um milhão de pais nossos?
- Minha filha, você peca contra você mesmo e não contra Deus. Paixão é assim. Te traz muito prazer e muita dor. Quer penitência maior?
- Puxa, Padre. Valeu viu ... (e ela saiu satisfeita e aliviada)

ALGUNS SEGUNDOS DEPOIS ALGUÉM ABRIU A PORTA DO CONFESSIONÁRIO E SEGUIU-SE UM DIÁLOGO.

- Olá, Seu Zé. Obrigado por tomar conta enquanto eu ia no banheiro.
- De nada, Padre João.
- Já tem meses que não aparece ninguém pra confessar. Ouvi vozes. Apareceu alguém?
- Teve uma menina sim, Padre João. Uma menina nova, mas era muito novinha, não tinha pecados, graças a Deus. Só essas bobagens mundanas, romances e ilusões da carne, essas coisas.
- Que bom.  Fico te devendo essa. Você é um santo, seu Zé.
- Sou nada , Padre João. Sou apenas jeitoso...

quinta-feira, 2 de abril de 2015

OS VAMPIROS ESTÃO ENTRE NÓS.

Os vampiros estão entre nós nas profissões mais inusitadas. Antigamente eram caçados pelos caça-vampiros, com seus colares de alhos, agua benta e fincos de prata. Mas depois de anos de perseguição, aprenderam a se adaptar e hoje vivem em sociedade sem despertar grandes suspeitas. A não ser por algumas práticas aceitas socialmente. Essa é a história de um desses anti-heróis ocultos, mas tão nas nossas caras que não vemos.

Enquanto isso, na redação daquele jornal...

- Pessoal, eu tava com a pauta da semana pra cobrir, mas pintou uma urgência aqui.
- O que foi chefe?
- Um rapaz acaba de ser assassinado num bairro da periferia. O corpo ainda está no chão e as pessoas estão passando pra olhar.
- É pra já, chefe. Vou pegar a moto e chego lá num instante. Onde aconteceu?
- No Bairro Cabana, perto da escola municipal
- Então vou correndo pra chegar antes da perícia. 
- Vai com cuidado, viu Ricardo. Não quero funcionário meu sendo preso por excesso de velocidade.
- Pode deixar, chefe. Sou um repórter responsável.

Ricardo saiu em disparada e misteriosamente chegou à cena do crime em 5 segundos. Lá chegando viu que as pessoas ficavam de longe observando o corpo. Chegou perto, analisou a cena do crime e tirou várias fotografias. O sangue pintava um quadro macabro no terreno e o corpo estava todo retorcido. Tratava-se de um rapaz que devia ter no máximo 18 anos. De repente a polícia chegou e um velho conhecido cumprimentou o repórter.

- Olá, Ricardo.
- Sargento Lemos. Como vai? Mais uma queima de arquivo?
- Não sabemos ainda. Vamos ter de examinar. Você não tem nenhuma informação?
- Ainda não tive tempo de conversar com ninguém. Acabei de chegar e tô aqui fotografando.
- Do jeito que você gosta né? Parece que você sente cheiro de sangue...
- Que isso, Sargento. Eu só dou sorte.
- E você chama isso de sorte?
- Uai. Essa é a minha profissão.
- Triste profissão, viu.
- E a sua? Olha que já segurei muita onda de alguns comandados seus.
- É verdade. Você é um bom parceiro. Mas vamos trabalhar. Chega de fotografias...
- Tá bom Sargento. Posso tirar umas dos policiais trabalhando?
- Melhor não. Ainda não sei quem é o defunto. Vai que é filho de alguém importante...
- Se for importante melhor ainda, pois vende mais jornais e meu emprego tá garantido. A profissão de repórter tá cada vez mais difícil. Muito desemprego.
- Ok. Mas acho melhor você sair da cena do crime. Temos ordens de agir rápido, pois a comunidade tá muito abalada. A perícia tá fazendo seu serviço e a ordem é limpar a área do crime o mais rápido possível.

NESSE INSTANTE CHEGOU UM POLICIAL COM UM RELATÓRIO.

- Sargento. Apuramos que o nome do rapaz é João. É de família de classe média, de pessoas de bem.  Teve uma passagem pela narcóticos. Tudo indica que pode ter sido eliminado por dívida com o tráfico. A família já está vindo.
- Obrigado, Gomes. Façam o serviço de vocês o mais rápido possível. Os pais devem ter contato com o filho morto em condições menos traumatizantes.
- Sargento. Permita-me uma opinião.
- Por favor, pode falar.
- Eles castigaram muito o rosto dele. A família não vai suportar ver. 
- Tem razão. Não é fácil. A assistente social já chegou?
- Positivo. Está conversando com alguns moradores.
- Cadê o Ricardo? 
- Sumiu, Sargento...

ENQUANTO ISSO, RICARDO JÁ ENVIAVA AS FOTOS PARA O JORNAL PELA INTERNET, ENQUANTO CORRIA COM SUA MOTO DIABÓLICA. Na cena do crime, conseguiu o que queria: algumas gotas de sangue com bastante adrenalina. 

No outro dia o jornal estava na banca com a foto do rapaz estirado na calçada , numa pose toda torta, com sangue espalhado por todo o terreno, coisa mais que corriqueira do mundo nos jornais vampiros. 

O público-vampiro mais uma vez regozijou-se com tanto sangue.

Para a família, a exposição das vísceras, profanação dos anos de carinho, de mimos, de amor  da criança inocente, anjinho, de tentativas de mostrar o caminho reto, dos descaminhos, da tragédia, do vazio sem esperança, da imensa decepção com o mundo dos homens e da indignação com os vampiros de sangue e de almas.