quinta-feira, 3 de setembro de 2015

MISÉRIA VOLUNTÁRIA

Enquanto isso naquela praça...

- Amigo, me desculpe. Eu tava reparando aqui. Você está lendo jornal de ontem? 
- Você é observador hein? É verdade!Todos os dias tem um moço que passa aqui as 7:12 da manhã. Ele pega o jornal novo que o jornaleiro deixa, vai até aquela lixeira ali, dá uma últimas olhadas no jornal velho e o dispensa na lixeira. Eu espero um pouquinho, vou lá e pego. O bom é que ele não desorganiza. Detesto jornal desorganizado, amassado...
- Você não acha mesquinho ler um jornal que o outro dispensou mas pagou por ele?
- Eu não acho não. É reciclagem, informação compartilhada.
- Mas as notícias são de ontem...
- Ih...não tem importância. São as mesmas notícias requentadas.
- Sei. O que o sr faz? É professor? Sei lá...um escritor?
- Não. Eu sou um mendigo.
- O que? Ah...você está brincando...
- Mas pra que eu iria brincar com uma coisa tão séria? Olha o meu chapeuzinho de pedinte. Bonito né? Se quiser dar a sua contribuição...
- Esse mundo tá perdido mesmo.
- Qual o problema. Só por que eu não visto roupa rasgada e não sou fedorento nem barbudo não tenho o direito de ser mendigo? Eu sou um mendigo diferente. Um bomtrapilho.
- Bomtrapilho? Só me faltava essa...
- Sou um mendigo light. Tomo banho todo dia, escovo os dentes, lavo as minhas roupas...
-  Puxa, mas não dá pra entender. Por que você virou mendigo?
-  Ah...fiquei de saco cheio de ser um sujeito normal, trabalho normal. Eu ganhava algum dinheiro mas não tinha tempo de viver. O que eu ganhava nunca dava pra pagar as coisas que eu queria. Eu estava ficando louco. Tinha um patrimônio razoável. Vendi tudo, paguei as dívidas, passei o dinheiro pra minha esposa e filhas, rasguei a identidade, o cpf, sumi no mundo e virei mendigo. 
- Mas onde você dorme?
- Durmo por aí. Tenho uma barraca arrumadinha. Monto ela cada época em algum lugar e vou levando a vida. 
- E como faz pra almoçar, necessidades básicas...
- Olha só. As coisas até melhoraram pra nós. Hoje em dia tem uns programas do governo, tem cesta básica, tem abrigos que dão um bom suporte aos mendigos. A única coisa ruim é que tive de refazer documentos para receber alguns benefícios. Mas tudo bem.
- O mais interessante é que você realmente não se parece com um mendigo. A gente tem esse estereotipo na cabeça.
- Só é sujo e maltrapilho quem quer. Tem vários lugares, tem uns abrigos padrão fifa, tem os shoppings que tem banheiros públicos. Quem anda apresentável é bem recebido em qualquer lugar.
- Mas peraí. Mas você ainda se diz mendigo, né? Quer dizer...pede dinheiro as pessoas na rua...não é isso?
- Mais ou menos. Eu coloco o chapéu no banquinho. Esse chapéu que você está vendo agora. 
- Mas não vai me pedir dinheiro?
- De jeito nenhum. Você só ajuda se quiser.
- E acha que vai me seduzir com esse chapeuzinho?
- O chapéu não convence ninguém. O que vale á a boa conversa.
- Tá certo então. Então me responda uma pergunta que coloco 50 reais no seu chapéu.
- Manda...
- Qual o sentido da vida?
- O sentido da vida é o futuro. O presente já é passado. Vamos fazer o amanhã...
- Filosofou legal.
- Só respondi a sua pergunta.
- Toma aqui seus 50 reais.
- Obrigado. Vou botar créditos pra usar internet no meu tablet. Vou criar um blog pra contar minhas histórias. 
- Posso te sugerir um nome?
- Manda.
- " O MENDIGNO". 
- Já é !!!

(Tenho uma música que conta mais ou menos essa historinha em versos. Quem quiser ouvir é http://palcomp3.com/solofertilmartino/miseria-voluntaria/)

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