quinta-feira, 14 de maio de 2015

A gente somos inúteis...



Enquanto isso, naquela praça no centro de uma favela, um sujeito dormia no banquinho.

- Ei...meu amigo. Você não pode dormir aí não...
- Mas quem é você?
- Eu sou segurança aqui da Vila. A praça é pública. Não pode dormir ai...
- Mas meu amigo. Como é que eu vou fazer? Eu perdi tudo, emprego, família...não tenho ninguém.
- Tá certo. O senhor é apenas mais um. Vá para aquele galpão. Lá eles vão te ajudar.
- Mas que galpão é esse?
- É o local onde ficam os obsoletos. O que você faz?
- Eu sou jornalista. O jornal em que eu trabalhava fechou e eu só sei ser jornalista.
- Tá certo. Já é o oitavo que chega aqui essa semana. Vou acompanha-lo até o galpão.
- Mas me diga uma coisa. Que comunidade é essa?
- O nome é Vila saudade. Mas vou encaminhá-lo para o galpão. Lá você terá alimentação, um colchão para dormir e encaminhamento.
- Muito obrigado.
ELE CHEGOU, PREENCHEU UM CADASTRO, REUNIU-SE COM UMA ASSISTENTE SOCIAL E FOI DIRECIONADO PARA UM QUARTO, ONDE ESTAVAM MAIS 6 PESSOAS
- Olá, meu amigo. Seja bem vindo na saudade.
- Bem vindo? Vou ficar aqui por pouco tempo.
- Todos falam isso.
- Mas como assim? Quero dar a volta por cima.
- Pra que? Aqui a gente tem tudo. Tem gente que já está aqui a muitos anos.
- Tá certo. Então me diga quem é você e como chegou aqui?
- Meu nome é Ângelo.  Eu era tipógrafo.
- O que são tipógrafos?
- São aquelas pessoas que montam jornais peça por peça, letrinha por letrinha. Quando apareceram as gráficas modernas, acabou o nosso trabalho. Como não sabia fazer outra coisa, a comunidade me acolheu.
-E você?
- Meu nome é Sr Lúcio Caldas. Eu era comerciante de 10 000 telefones. Eu alugava e vendia. Fui um sujeito bem rico. De repente o mercado de telefones acabou, evaporou e eu perdi tudo que tinha.
- Sério? E você?
- Eu era vendedor de máquinas elétricas de escrever. Era um mercado excelente. Mas aí apareceram os computadores e fiquei com um estoque enorme, vindo a falir e a perder tudo nos anos sequentes.
- E você aí de Boina?
- Fui vendedor de enciclopédias BARSA. Não contava que um dia teríamos o google e outros recursos. Tenho dois containers cheios de BARSAs encalhadas. Ninguém quer nem como doação.
- E vocês?
- Eu sou ex calculista de obras. Mas depois que apareceu o Autocad, fiquei sem emprego.
- Sou ex bancário. Os caixas eletrônicos e a internet me substituíram.
- Eu tinha uma gráfica e só trabalhava com listas telefônicas. Quebrei há  5 anos e também estou aqui.
- Minha nossa senhora. Nós precisamos fazer alguma coisa...
- Mas fazer o que? Pra que ficarmos nos matando lá fora? Aqui nós temos comida, lugar pra tomar banho, roupa, televisão pra assistir e até internet?
- Mas isso não é viver...é vegetar...
- Que nada. Aqui é muito bom. Pra que ficar dando murro na ponta de faca?
- Mas a gente precisa ser útil.
- Mas quem falou que não somos úteis?
- Quem banca esse lugar?
- Uai. Tem uns empresários aí, uma ONG, tudo em troca de uma coisa muito simples.
- O que?
- Que votemos nos candidatos deles nas próximas eleições e participemos de algumas manifestações. Dizem que eles tem mais um monte de galpões como esse.
- Bem razoável. Nós não somos vagabundos. Somos descartados pelo sistema.
- E ainda ganhamos um cartão, o bolsa dignidade, que a gente vai renovando todo mês para comprarmos alguma coisa pra nós.
- Muito justo. Mas eu não pretendo continuar explorando ninguém. Quero ganhar o meu  dinheiro, fazer meu próprio destino
- Tá certo então. Mas o que você faz mesmo?
- Sou professor...
- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

( Tá rindo aí também? De repente tem um lugar  pra você lá na vila.)

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