quinta-feira, 2 de abril de 2015

OS VAMPIROS ESTÃO ENTRE NÓS.

Os vampiros estão entre nós nas profissões mais inusitadas. Antigamente eram caçados pelos caça-vampiros, com seus colares de alhos, agua benta e fincos de prata. Mas depois de anos de perseguição, aprenderam a se adaptar e hoje vivem em sociedade sem despertar grandes suspeitas. A não ser por algumas práticas aceitas socialmente. Essa é a história de um desses anti-heróis ocultos, mas tão nas nossas caras que não vemos.

Enquanto isso, na redação daquele jornal...

- Pessoal, eu tava com a pauta da semana pra cobrir, mas pintou uma urgência aqui.
- O que foi chefe?
- Um rapaz acaba de ser assassinado num bairro da periferia. O corpo ainda está no chão e as pessoas estão passando pra olhar.
- É pra já, chefe. Vou pegar a moto e chego lá num instante. Onde aconteceu?
- No Bairro Cabana, perto da escola municipal
- Então vou correndo pra chegar antes da perícia. 
- Vai com cuidado, viu Ricardo. Não quero funcionário meu sendo preso por excesso de velocidade.
- Pode deixar, chefe. Sou um repórter responsável.

Ricardo saiu em disparada e misteriosamente chegou à cena do crime em 5 segundos. Lá chegando viu que as pessoas ficavam de longe observando o corpo. Chegou perto, analisou a cena do crime e tirou várias fotografias. O sangue pintava um quadro macabro no terreno e o corpo estava todo retorcido. Tratava-se de um rapaz que devia ter no máximo 18 anos. De repente a polícia chegou e um velho conhecido cumprimentou o repórter.

- Olá, Ricardo.
- Sargento Lemos. Como vai? Mais uma queima de arquivo?
- Não sabemos ainda. Vamos ter de examinar. Você não tem nenhuma informação?
- Ainda não tive tempo de conversar com ninguém. Acabei de chegar e tô aqui fotografando.
- Do jeito que você gosta né? Parece que você sente cheiro de sangue...
- Que isso, Sargento. Eu só dou sorte.
- E você chama isso de sorte?
- Uai. Essa é a minha profissão.
- Triste profissão, viu.
- E a sua? Olha que já segurei muita onda de alguns comandados seus.
- É verdade. Você é um bom parceiro. Mas vamos trabalhar. Chega de fotografias...
- Tá bom Sargento. Posso tirar umas dos policiais trabalhando?
- Melhor não. Ainda não sei quem é o defunto. Vai que é filho de alguém importante...
- Se for importante melhor ainda, pois vende mais jornais e meu emprego tá garantido. A profissão de repórter tá cada vez mais difícil. Muito desemprego.
- Ok. Mas acho melhor você sair da cena do crime. Temos ordens de agir rápido, pois a comunidade tá muito abalada. A perícia tá fazendo seu serviço e a ordem é limpar a área do crime o mais rápido possível.

NESSE INSTANTE CHEGOU UM POLICIAL COM UM RELATÓRIO.

- Sargento. Apuramos que o nome do rapaz é João. É de família de classe média, de pessoas de bem.  Teve uma passagem pela narcóticos. Tudo indica que pode ter sido eliminado por dívida com o tráfico. A família já está vindo.
- Obrigado, Gomes. Façam o serviço de vocês o mais rápido possível. Os pais devem ter contato com o filho morto em condições menos traumatizantes.
- Sargento. Permita-me uma opinião.
- Por favor, pode falar.
- Eles castigaram muito o rosto dele. A família não vai suportar ver. 
- Tem razão. Não é fácil. A assistente social já chegou?
- Positivo. Está conversando com alguns moradores.
- Cadê o Ricardo? 
- Sumiu, Sargento...

ENQUANTO ISSO, RICARDO JÁ ENVIAVA AS FOTOS PARA O JORNAL PELA INTERNET, ENQUANTO CORRIA COM SUA MOTO DIABÓLICA. Na cena do crime, conseguiu o que queria: algumas gotas de sangue com bastante adrenalina. 

No outro dia o jornal estava na banca com a foto do rapaz estirado na calçada , numa pose toda torta, com sangue espalhado por todo o terreno, coisa mais que corriqueira do mundo nos jornais vampiros. 

O público-vampiro mais uma vez regozijou-se com tanto sangue.

Para a família, a exposição das vísceras, profanação dos anos de carinho, de mimos, de amor  da criança inocente, anjinho, de tentativas de mostrar o caminho reto, dos descaminhos, da tragédia, do vazio sem esperança, da imensa decepção com o mundo dos homens e da indignação com os vampiros de sangue e de almas.

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