sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

TRAFICANTE DO FUTURO

Estamos no ano de 2050 e eu sou o repórter Jairo Legs. Hoje vamos exibir a entrevista que fizemos com o Zé Dendágua, o maior traficante do Brasil. Pra chegar à sua fortaleza, tivemos de passar por 8 círculos de segurança. Veja agora a entrevista com o grande comerciante informal.

- Senhor Zé Dendagua. Em primeiro lugar, por que esse apelido?
- Por incrível que pareça, tudo aconteceu por volta de 2015, quando começou a grande seca.Eu era adolescente e só gostava de ficar dentro da piscina.
- Mas o que o levou a se tornar esse “comerciante” tão bem sucedido?
- Por causa de uma ideia que tive nessa época. Quando começaram a falar que ia faltar agua, eu tive a ideia de juntar garrafas pet e encher de agua num ribeirão que passava perto da minha casa. Eu pegava e guardava num galpão abandonado. Tudo começou assim. Juntei milhares de garrafas. Depois arranjei uns tambores também e fui estocando. Passei dois anos fazendo isso.
- Mas o que aconteceu depois?
- Aconteceu que não choveu mais, a água foi escasseando e muitas pessoas foram indo embora da nossa região.
- E aí?
- Aí que as pessoas que ficaram precisavam de água e só eu tinha pra fornecer.
- E você enriqueceu com isso?
- Ganhei muito dinheiro. As pessoas pagavam qualquer valor pela água.
- E depois?
- Depois começou a parar de chover em outros lugares também. O planeta começou a cobrar pesado pelos anos de depredação.
- E aí você ganhou mais dinheiro?
- Não imediatamente. Ai aconteceu que os cientistas começaram a reciclar tudo. O fornecimento básico se normalizou, mas o povo só tinha água reciclada de lixo, de urina, de esgotos. Os banhos passaram a ser secos.
- E isso não foi bom pros seus negócios...
- Num primeiro momento achei que ia me dar mal, mas foi aí que eu ganhei dinheiro direito.
- Mas como?
- Enquanto o povo bebia agua de xixí, agua de cocô, agua com cheiro e gosto esquisitos, eu tinha água pura de várias fontes.
- Puxa vida. É mesmo hein? Virou o rei da água né?
- Mais ou menos. Na verdade a água em geral foi estatizada. Ninguém mais podia comercializá-la. 
- E criou essa fortaleza com um exército protegendo...
- Engano seu. Eu é que protejo as minhas comunidades. E garanto o fornecimento de água limpa.
- Mas o governo parou de importuná-lo?
- Eu tive de tomar algumas providências. Comprei alguns vereadores, banquei as campanhas de 8 deputados e até arranjei dinheiro pra campanha do último presidente. Eles não mexem comigo.
- E vem muita gente atrás da sua água especial?
- Você nem imagina. Forneço água de todo jeito. Desde água barrenta de ribeirão, que é mais barata, até água da boa, cristalina, safras pra lá de especiais.
- E como conseguiu?
- Na mesma época em que eu estava estocando água, aluguei um caminhão pipa e sai por diversas trilhas serranas e enchi várias garrafas de águas das serras, de nascentes limpíssimas.
- Mas me diga uma coisa. Os meteorologistas estão prevendo que no verão deste ano teremos a volta do ciclo natural de chuvas, que tudo vai se normalizar. O que você tem a dizer a respeito?
- Se voltar vou ficar feliz também. Sonho em rever as matas verdejantes e os rios da minha infância.
- Mas vai perder dinheiro.
- Dinheiro não é tudo. Troco todo dinheiro que tenho por um banho de rio.
- Puxa. Essa foi forte pra encerrarmos a entrevista. Muito obrigado pela gentileza.
- Eu é que lhe agradeço. E para fechar a  com chave de ouro, que tal brindarmos com um delicioso copo d’agua.
- De sua safra especial?
- Sim...veja na garrafa...
- Água da Serra do Caraça – safra 2015. Que maravilha...

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