domingo, 4 de janeiro de 2015

TÃO VELHO QUANTO O PLANETA

Aquele rapaz gostava de se aventurar sozinho. Gostava de subir montanhas, explorar locais desabitados, seja de bike, seja escalando. Gostava de ir onde ninguém jamais foi, nadar pelado, dormir ao relento, sem ninguém para incomodá-lo. Certo dia resolveu subir a Serra da Piedade, mas pelo lado mais selvagem, pra explorar os trechos incólumes, sem gente, sem construções. Planejou tudo direitinho e subiu com seus apetrechos. A certa altura, parou num platô para tomar água e repor os sais minerais.Pra comer, tinha o costume de procurar iguarias locais. Não assumia isso pra ninguém, mas costumava alimentar-se de larvas de insetos, de frutas e de raízes que conhecia muito bem. Só que naquele dia, ele comeu uma raiz diferente. Depois de algum tempo, começou a sentir que havia uma presença não identificada por perto. Resolveu gritar...

- Tem alguém aí? Ei...tem alguém aí?
- ( silêncio...)
- Eu sinto que tem alguém aí...( disse, tirando uma faca da mochila).
- Calma. Não precisa se preocupar. Sou apenas um andarilho...
- Mas o que está fazendo aqui?
- Eu ando por essas bandas há muitos anos.
- Mas o que faz aqui? Longe da civilização? Longe de tudo?
- Eu gosto de observar. Aqui é alto. Dá pra ver longe...a cidade grande...os morros...até os planetas.
- Mas você dorme aonde?
- Eu não durmo.
- Como você se alimenta?
- De luz.
- Você está de brincadeira né? Vai querer que eu acredite nisso?
- É científico. As pessoas tem medo de pesquisar a respeito e descobrirem que não precisam mais comer. As pessoas no fundo adoram comer.
- É. Faz sentido. Mas não sente falta das pessoas? De conviver com as outras pessoas?
- Ah...eu já convivi com muita gente, mas agora minha missão é outra.
- Você diz que já conviveu com muitas pessoas. Por que se cansou?
- Por que resolvi dar uma afastada pra ver as coisas de forma mais racional. Vivendo no meio das pessoas, a gente se contamina com as ideias vigentes.
- Como assim?
- Por exemplo: teve uma época em que todos eram tementes a Deus de um jeito que escravizada o pensamento e não permitia nenhum prazer.
- Deixou de acreditar em Deus?
- Não adianta não acreditar. Há uma ordem universal, há energias, há criação e criaturas, a biologia e o etéreo.
- Quantas teorias para um eremita.
- Nem sempre a sabedoria tá nos livros.
- E você assim...observando a humanidade de longe...como acha que ela está hoje?
- Está na idade do gafanhoto. Por onde passa deixa um rastro de destruição.
- E tem solução?
- Claro que tem. Mas precisará acontecer uma grande catástrofe para que haja um novo despertar.
- E você não sente necessidade de estar com mulheres, sei lá, se divertir um pouco?
- Já passei dessa fase há muito tempo.
- Peraí...há muito tempo quanto? Há quanto tempo mora nesse lugar?
- Desde o início.
- Desde o início como assim?
- Desde que esse planeta começou a esfriar.
- Hein?
 - Desde que as primeiras espécimes saíram do mar, que as plantas começaram a viscejar...desde que as grandes criaturas caminharam pelo planeta e o surgimento do homo sapiens.
- Quem é você afinal?
- Sou um vigia, tão velho quanto o planeta. Estou aqui para testemunhar a história do planeta, observar e ser depositário da epopeia da vida na terra. Já fui pedra, já fui poeira, já fui árvore, dinossauro...hoje tenho essa forma humana.
- E você é biológico...ou espiritual?
- Nem uma coisa nem outra...sou um elemental...
- Mas sinceramente. Tem gente que estranha. Você costuma aparecer para as pessoas aqui na serra?
- Só para os que comem essa raiz que você ingeriu há alguns minutos atrás.
- Raiz alucinógena? Agora é que estou entendendo. Você não é real..
- Raiz psicodélica, portal dimensional, chame como quiser. Quanto a ser real ou não, cabe a você discernir a consistência de suas experiências. Agora vou nessa pois vai ter uma missa lá na igreja e não posso perder.
- E essa raiz? Corro o risco de ter mais alguma alucinação? Ver algo mais estranho?
- Sugiro que fique quieto e procure relaxar. Tem uns demônios muito antigos que costumam passar por aqui. Daqui a umas duas horas o efeito passa.
- E vou me lembrar de tudo?
- Sim. Mas se você contar pras outras pessoas ninguém vai acreditar ...
- E pra me lembrar depois...tem algum nome pra identificá-lo?
- O pessoal antigamente me chamava de Barão de Catas Altas...

(Nosso amigo ficou por lá babando, fazendo viagens para o passado e para o futuro, voltando e acelerando a fita da própria vida, até que passou o efeito da raiz e ele retornou à civilização. ). 

Um comentário: