sexta-feira, 31 de outubro de 2014

RETRATO DO BRASIL



ENQUANTO ISSO, NO BAR DO SEU ZÉ.

- Seu Zé. Traz a saideira por favor.
- Uai. Fica mais um pouco. O jogo ainda não acabou...
- Vamos embora, seu Zé. O galo não vai virar esse jogo. Tá dando raiva. Feche a conta, por favor.
- Tá bom...aqui...são 12 cervejas, o tiragosto e dois maços de cigarro.
- Pode botar na conta?
- Claro. Tem problema não.
- Então vamos nessa pessoal? Esse galo hoje tá dando raiva. Tchau, seu Zé

QUANTO A TURMA FOI EMBORA, UM FREQUENTADOR DO BAR SE APROXIMOU

- Seu Zé. Você sabe quem são aqueles ali?
- Sei sim. É o Leco, filho da Dona Zizinha e os amigos dele.
- Mas o povo fala que ele é traficante.
- Ah. Eu não vejo nada escrito na testa dele. Ele vem aqui, toma suas cervejas e paga as contas direitinho.
- Mas seu Zé. Não pega bem um cara desses frequentando seu estabelecimento.
- Ô Adãozim. Vem cá. Imagine que você é um dentista. Vai deixar de tratar de dente de alguém por causa da fama?
- Mas o povo fala, né Seu Zé.
- Ah...e fala mesmo. Nisso vc tem razão. Por exemplo. Sabe o Alfredim?
- Sei. O que é que tem o Alfredim? Eu pesco direto com ele. É gente boa.
- Mas dizem por aí que ele é boiola. Também pega mal pra você ir pra pescadinha com ele. não acha?
- Que isso. Alfredim fala direto de mulher. Isso é coisa da língua do povo.
- Tá vendo?
- Ah, seu Zé. Mas ser viado não é ilegal. Pode ser imoral, mas não é ilegal.
- Então tá Adãozim. E esse relógio que você está usando?
- Gostou? Comprei no camelô. Bonito né?
- Bonito? Isso também é ilegal. Um relógio falsificado e pirateado. Também pega mal, viu Adãozim?
- Mas a pirataria tá geral, seu Zé. Até o senhor vende DVD pirata.
- Tá bom. E os políticos com sua corrupção? Você não votou naquela candidato...o Milton Caridoso? 
- Votei sim. Fiz campanha pra ele, uai. Me pagou mil real.
- Pois é. Ele não é um ladrão? Não embolsou um monte de dinheiro?
- Ele rouba mais faz, né seu Zé? Ele não fez aquela pinguela que serve pro povo atravessar o córrego?
- Fez. Mas gastou 200 mil pra fazer. Uma obra que não fica em 5 mil. Não pega mal também?
- Ah, seu Zé. Corrupção é normal. Político rouba mesmo. O povo até gosta de fazer piada. 
- Então? Pra que então implicar com o Leco, que é excelente cliente e trata todo mundo bem?
- Mas ele faz algo que dá cadeia, né seu Zé. O Sr sabe.
- Eu não sei de nada. Você é quem está falando. Se ele faz algo de errado não é aqui. Enquanto isso vc vem aqui todo dia, faz muito fofoca e não gasta nada.
- Puxa, seu Zé. Achei que fossemos amigos.
- Uai. Somos amigos. Mas não gosto de fofoca nem de preconceito. E não gosto de julgar ninguém. Aqui todo cliente é bem vindo.
- Tá certo, seu Zé. Me adesculpa.
- Tá tudo certo. Por falar nisso...esse carro é seu?
- Sim...
- Bacana hein? Comprou onde?
- Comprei na mão de um sujeito que mora perto lá de casa. Vale 30 mil. Mas comprei por 3 mil, já com documentos quentes, tudo regulamentado.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

ROMEU E JULIETA À BRASILEIRA

Aquele casal começou a namorar totalmente por acaso, como por acaso quase sempre começam os romances. Ele estava andando de skate, enquanto ela corria pela pista De repente ele escorregou e levou um tombo feio. Ela ofereceu-se para ajudar. Ele pegou um pouco de mercúrio, algodão e esparadrapo que tinha em sua mochila. Ela limpou cuidadosamente o local com um pouco de água usando uma mangueira que havia próxima a grama, fez um curativo direitinho e finalmente puderam conversar.

- Valeu, hein?
- Por nada.
- Você tem a mão leve.
- Uai. Sou mulher né?
- E muito linda por sinal.
- Obrigada.
- Você corre sempre por aqui?
- Comecei hoje. E você? Anda sempre de skate por aqui?
- Sempre. Eu adoro skate.
- Não se acha...sei lá...meio velho pra isso?
- Besteira. A gente não deve deixar de fazer o que gosta por causa do tempo.
- É. Você tem razão. Tem jovens velhos e velhos jovens, né?
- Mas peraí. Eu não sou velho. Quantos anos acha que tenho?
- Sei lá. Uns 23, 24 anos.
- Rs. Tenho 27.
- Puxa. Então não podemos...
- Não podemos o que? 
- Ah...sei lá...eu tenho 19...
- Você tem medo?
- Não...

ELE ROUBOU UM BEIJO...E ELA CORRESPONDEU...

- Puxa...você não devia.
- Devia sim. Se não eu não fizesse isso, íamos ficar no maior chove não molha.
- Mas você me beijou sem nem...
- Ah...vai dizer que não gostou?
- Gostei...mas...e agora?
- Uai...quer namorar comigo?
- Mas assim? 
- Por que não?
- Então tá, né? 
- Que bom. Estou muito feliz.
- Eu também. Parece que nascemos um pro outro.
- Me fale um pouco de você.
- Bom, eu estudo administração, moro na cidade alta, gosto de rock...e você?
- Eu? Estou estudando para um concurso, moro aqui perto e gosto de MPB. 
- Legal. Que bom que o destino nos juntou. Nós fomos feitos um pro outro.
- Então estamos namorando?
- Depende.
- Depende de que?
- Você é 13 ou 45?
- Sou 45.
- Ih...então sem chance. Não dá pra gente continuar.
- Mas por que?
- Meu pai é 13. Se souber que tô conversando com alguém do 45 ele me bate. Se souber que tô namorando ele mata nós dois.
- Mas não é possível. Ele é tão fanático assim?
- Você não imagina. Ele não aceita quem pensa diferente.
- Então, se não é possível vivermos juntos, prefiro morrer meu amor. Vamos tomar venenos juntos e dar Adeus a esse mundo cruel, cenário inóspito para um amor tão puro como o nosso. 
- Eu tenho uma ideia melhor.
- Qual ideia?
- Só você fingir que é PMDB. Meu pai vai até querer tomar 
cerveja com você. Se der 13 você estará na fita. Se der 45, também... 


domingo, 12 de outubro de 2014

LER É BOM DEMAIS

Li dois livros bem interessantes nesse final de semana. Primeiro da poetisa monlevadense  Maria Mári. Tava guardando pra ler num momento certo. Prazerosa leitura, poesia sensibilíssima, desconcertante. O nome do livro é "Busca íntima". Maria tem vários títulos publicados e está lançando nova obra sobre a poética de Paulinho Pedra Azul, que vem tendo ótima acolhida e será lançado em BH, na livraria da Travessa em 18 de novembro. O outro livro queli foi "Tempo de Espera", do conterrâneo Welis Couto. Achei bem legal a criação da ambiência, a narrativa do cenário no sertão goiano, com seu por do sol avermelhado, bonito, porém terrível pela seca e calor inflemente, também a criação dos personagens, a descrição dos modus operandis dos políticos velhacos do interior e o anticlimax da conclusão. Não vou contar mais para não dar mais pistas. Em breve vou comentar mais à respeito e publicar algumas poesia de Busca Íntima e  de algumas passagens interessantes de "Tempo de Espera".

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

PRESTAÇÃO DE SERVIÇO, CUMPADRE!!!

 

Enquanto isso, numa vendinha do interior.

- Tarde.
- Tarde.
( silêncio de 1 minuto)
- Tempo tá virado...
( silêncio de mais 1 minuto).
- Mas vem chuva de tanajura.
- Dia 20.
- Que tem dia 20?
- Vai chuver.
- Como sabe?
- Cumpadre Antônio falou.
- Ele é vidente?
- Não. Ele ouve o climatempo na rádio
- E a política...
- O que tem a política?
- Você gosta de política?
- Mas é claro, uai...vixe...fica quieto que tá chegando um home aí.

Um sujeito gordinho e falante adentrou pela vendinha

- Seu  Zé, seu Zé. Tô precisano docê.
- Mas é claro. Em que posso serví-lo.
- Sabe o que é? Tá vindo a eleição, né? Nós estamos trabalhando com o candidato Dr Alfredo. Ele é o candidato da saude, é o que tem as melhores propostas para a cidade, inclusive para o fim de mundo de vocês aqui, quer dizer, a comunidade de vocês.
- Mas é claro que nós vamos votar nessa ratazana, quer dizer, no bacana do Dr. Alfredo. Aqui eu arrumo voto pros candidato mesmo.
- Que bom. Então nós podemos contar com o senhor?
- Mas é claro. Só tem uma condição.
- Mas qual que é?
- É deixar uma pequena colaboração de 300 real pra caixinha dos funcionários.
- Ah...claro. Tá aqui ó.
- E pode contar comigo sim. Traga os demônios, quer dizer os santinhos do seu candidato que eu vou distribuindo.
- Então tá combinado. 

Depois que o cabo eleitoral saiu, o companheiro que tava na moita falou

- Mas ocê é ordinário mesmo, hein Zé?
- Mas mode porque, cumpadre?
- Você pediu dinheiro pro caixa dos funcionários...mas só tem você de funcionário.
- Ah cumpadre Jorge. Você tá muito preocupado com miudeza. Mas o que a gente tava conversando mesmo?
- Sobre política. Eu perguntei o que você tá achando da politica.
- Ah...eu não gosto muito desse trem. Gosto mais de futibor. Veja o tanto de fotos de time com título que eu tenho. Ser Cruzeirense é muito bom, né cumpadre Jorge?
- É bão mesmo. Ih...olha lá...lá vem mais um...

ENTROU MAIS UM CABO ELEITORAL FALADOR

- Seu João. Como é que estão as coisas?
- Opa. Você não é filho do Pedro Polycarpo?
- Sou eu mesmo...
- Seu pai tocava sanfona muito bem. Tocava Luiz Gonzaga e música sertaneja da boa.
- Pois é. Mas o senhor vai me desculpar mas tenho de ser objetivo. Sabe como é né? Sou pragmático.
- O sr é o que? 
- Pragmático? 
- Pragmático é um espécie de macumbeiro?
- Macumbeiro?
- Que joga praga na gente.
- O sr é brincalhão hein?
- Mas que tal irmos ao que interessa?
- Mas claro. Eu queria pedir ao senhor pra apoiar o nosso candidato, o Chico Picareta. 
- Mas o que que ele pode fazer pelo povo aqui da região?
- Ele vai trazer mais emprego, mais segurança, saúde, lazer, cultura, desenvolvimento, educação, tudo que tiver no menu.
- Uai. Ele é bom então, hein? Pode contar com meu apoio.
- Sério mesmo? Então posso trazer os santinhos pro senhor?
- É claro...mas com uma condição.
- Que condição é essa?
- Que você deixe 480,00 para o caixa dos funcionários. 
- Mas é claro...deixa eu depositar aqui...
- E vou ficar esperando os capetinhas hein, quer dizer...os santinhos.
- Ok...agora vou andando...

QUANDO O MALA ELEITORAL SAIU O CUMPADRE RESOLVEU FAZER SUA CONTABILIDADE

- Deixa eu ver aqui...vou fazendo os bolinhos de 100 cruzeiro...2.500 cruzeiro. Tá bom né?
- Cumpadre, você é muito esperto.
- Sou nada...
- Mas me diga uma coisa. Todo dia é assim?
- Vareia. Tem dia que dá menos um pokim.
- E o Sr trabalha pra todo mundo mesmo?
- Mas é claro. Deixa eu te mostrar como funciona. Fecha o olho.
- Pra que?
- Feche o olho e não discute............agora pode abrir
- Mas o que é isso?
- É meu baralho de candidatos. Chega gente aqui e me pergunta se eu tenho algum candidato pra indicar. Eu falo que tenho vários pra indicar. Só gente boa. Ofereço o baralho e peço pra pessoa escolher um. Tem gente que até agradece.
- Tá certo cumprade. No final tá ajudando as pessoas, né?
- Prestação de serviço, cumpadre...

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ARCO-ÍRIS


ENQUANTO ISSO...NUM CHAT...

- Oi
- Oi
- Você existe?
- Claro
- Como sabe?
- Como assim?
- Que existe...
- Não estou aqui?
- Aí onde?
- Clickando com você.
- Sei lá
- Sabe lá o que?
- Se você não é um algoritmo
- Sou é carente...
- Sério?
- Hã, hã...!
- Uai.
- Uai o que?
- Se você quiser...
- É claro que eu quero
- Onde?
- Você escolhe
- Que tal um shopping?
- Que tal um motel?
- Avançada você, hein?
- Sou direta
- Motel então?
- Pesquisando...
- Paradise?
- Prefiro Hell.
- Urrú...vai ser muito bom, gata.
- Só tem um detalhe.
- Que detalhe?
- Eu não sou exatamente uma mulher
- Eu também não sou exatamente um homem.
- Vixe...então não vai dar certo.
- Mas por que?
- Você não tem o que eu quero.
- Nem você tem o que eu quero...mas...pode ser divertido.
- Será?
- Bora tentar?
- Demorô. Paradise ou Hell?
- Hell. No paradise não tem lugar pra nós.

CADA UM PEGOU SEU CARRO E PARTIRAM PARA O HELL. NO MEIO DO CAMINHO UMA PASSAGEM DE NUVENS COM SOL E CHUVA. ONDE TEM SOL E CHUVA TEM ARCO-ÍRIS. NA IDA PARA O MOTEL PASSARAM DEBAIXO DO DANADO DO ARCO-ÍRIS. NO MOTEL A NATUREZA FEZ SUAS TRAPAÇAS, O CÔNCAVO E O CONVEXO SE ATRAÍRAM,  OS PAPEIS SE MISTURARAM, A VIDA DOS DOIS ENCAIXOU-SE E COMEÇARAM A NAMORAR, TIVERAM SEU PRIMEIRO FILHO E A VIDINHA ENTROU NOS EIXOS. ESQUECERAM ATÉ DAS PRÁTICAS ANTERIORES. ATÉ PARECE QUE VIRARAM DEVOTOS DO FELICIANO. MAS CERTO DIA ESTAVAM RETORNANDO DE UMA FESTA, NOVAMENTE SOL COM CHUVA E UM ARCO-ÍRIS NO CAMINHO...