sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O HISTORIADOR DO FUTURO

Naquela manhã ela corria ouvindo rock no último volume. O cenário era sempre o mesmo. Ela gostava do caminho ermo, uma trilha que passava atrás do cemitério e ia dar em outro ponto da cidade. Quando estava no ponto mais isolado do trajeto, teve uma sensação estranha, como se houvesse alguém observando à distância. Ela diminuiu o volume do seu player e se arrepiou. Do meio do mato apareceu um rapaz com cabelo e roupa estranhos.

- Olá..
- Oi
- Por favor. Em que ano estamos?
- Uai. 2014. Mas quem é vc?
- Que ótimo. Exatamente o ano que eu queria observar.
- Mas como assim. Quem é você?
- Se eu te contar, você não vai acreditar.
- Tente.
- Sou um viajante do tempo.
- Ok. Mas eu preciso correr. Ainda tenho de passar em casa tomar um banho, almoçar e pegar serviço.
- Tudo bem. Diga-me apenas mais uma coisa. Que dia é hoje?
- 29 de agosto.
- Ótimo. Faltam poucos dias então.
- Peraí. Falta pouco tempo pra que?
- Pra eleição, uai. Eu vim observar os fatos que se desencadearão.
- Peraí. Mas o que vai acontecer?
- Infelizmente não estou autorizado a lhe contar. Só preciso conferir pra reestabelecer a verdade.
- Mas como eu vou saber que você está falando a verdade? Você pode ser um impostor...ou um doido.
- Melhor você pensar assim.
- Mas você não tem tecnologias? Tipo computador, tablete, smartphone, chips...
- Já abolimos essas tralhas há muito tempo. A computação quântica revolucionou tudo. Não precisamos mais dos suportes físicos.
- Mas como você tem acesso a informações, como envia mensagens?
- Eu já disse...com a computação quântica  basta a gente pensar que as mensagens são enviadas.
- Nossa. Que legal. Mas me diga uma coisa: quem vai ganhar essa eleição?
- Infelizmente não posso revelar. Será uma eleição muito diferente
- Mas o que você veio conferir?
- Eu sou inspetor da história. Vim conferir se as coisas aconteceram como nos livros de história ou se houve alguma manipulação.
- Como assim?
- Houve denúncias de fraudes, mas nunca foram devidamente apuradas.
- Mas me diga uma coisa. Você fala dessa computação quântica. Mas como faz pra acessar? A internet acaba no futuro?
- Eu acesso através de nano-robôs  que circulam pelo meu corpo.
- Cruzes. Nano o que? É um tipo de micróbio?
- Não. A nanotecnologia foi revolucionária para tudo, inclusive para a medicina.Os nano-robôs monitoram e fazem manutenção permanente de todos os sistemas  físicos e orgânicos e ainda garantem acesso irrestrito à galáxia de informações.
- E essa roupa que você está vestindo.
- Ah...essa aqui...espere um pouco...
- Caramba...mudou de cor...mudou tudo.
- Roupas inteligentes. Você pensa e a roupa muda...
- Que máximo. Quero uma assim. E você é bonito. Deve pegar muitas meninas lá no seu mundo.
- No futuro todos serão meninos e meninas.
- Mas peraí...que história é essa?
- É sério. Todos serão hermafroditas. Todos serão homens e mulheres.
- Caramba. Mas como será isso? Vai ser muito estranho...
- Vai ser natural. E tem outra. No mundo do futuro, os avanços da medicina permitirão que uma pessoa viva até 300 ou 400 anos. Os computadores quânticos descobriram a cura para a velhice.
- Puxa amigo. É muita coisa pra minha cabeça. Qual o seu nome mesmo?
- Meu nome é Lahm.
- Prazer. Eu sou Karina. Mas me diga uma coisa. Você é real mesmo?
- Claro. Tem alguma dúvida?
- Posso  te beliscar?
- Beliscar? Rs. Se isso lhe convencer.
- Então vou lá...(beliscando)
- Ai...
- Doeu?
- Caramba...
- Dizem que tenho o beliscão mais finiquim lá da escola.
- Doeu mesmo.
- E a viagem no tempo? Quando começaram?
- Algum tempo depois do desenvolvimento da computação quântica houve uma aceleração imensa no desenvolvimento humano. As teorias de vários cientistas foram comprovadas e viabilizadas. Entre elas, a viagem no tempo.
- Mas todos no futuro podem viajar no tempo?
- Sim. Mas poucos como eu.
- Como assim?
- Alguns vem só para observar. Ficam em grandes naves em torno do planeta observando de longe. Não tem permissão para vir aqui embaixo
- E por que você tem?
- Porque sou um historiador. E geralmente chego antes para antecipar os fatos.
- Mas por que foi aparecer logo aqui?
- Por que você será a minha primeira da minha linhagem e eu queria conhecê-la.
- Hein???
- De certa forma, você é a minha mãe.
- Você é bem doido hein? Que imaginação. Eu queria ver até onde você ia.
- Bom, estou feliz por tê-la conhecido. Agora tenho que ir.
- Pera aí. Fique. Quero apresentá-lo para uns amigos doidos que eu tenho, o Dindão, Marcelo Sputnik, Daniel Bahia, Rogério Martino...
- Não posso. Tenho de ir. Prazer em conhecê-la.
- Não me diga que você vai se teleportar daqui?
- Exatamente. E você vai se esquecer de tudo que aconteceu aqui.Tchau...

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

MODA QUE DEVERIA PEGAR...

Enquanto isso naquela madrugada
- E aí? Tudo conferido?
- Tudo em cima. Claro. Estão aqui as roupas pretas, os capus, luvas,capacetes, botas. Tudo.
- Ótimo. Vamos trocar de roupa então. E as motos? Fez as alterações?
- Sim. Pode ficar tranquilo. Ninguém vai conseguir ver as placas.
- Ok. E a tinta? Tudo em cima?
- Sim. Pode ficar tranquilo.
- E passou aquele email para o pessoal do site?
- Sim. Fiz como você pediu. Dei uma pista falsa. Eles chegarão no local algumas horas depois de completarmos o trabalho. Quando chegarem já estaremos longe.
- Ótimo. Já mapeou todos os cartazes e outdoor que iremos modificar?
- Claro. Vamos sair então? Faltam 15 minutos para começarmos a ação.
- Então vamos...

Os dois amigos saíram em suas motos pela cidade. Eram artistas plásticos e queriam alertar para a feiura que ficava a cidade com as propagandas políticas. Saíram adulterando cartazes e propagandas em locais públicos. Fizeram tudo muito bem planejado. A cidade estava completamente deserta naquela madrugada de terça-feira. Fazia um frio de 6 graus. Depois de 3 horas de trabalho, chegarem em casa. A primeira coisa que fizeram foi queimar todas as roupas utilizadas. Colocaram também as placas originais nas motos e foram para suas casas. 
Algum tempo depois chegou a equipe do site fotografando tudo e disponibilizando no instagram e facebook. Na verdade o que fizeram foi desmascarar os slogans quase sempre mentirosos, peças publicitárias feitas para seduzir, para iludir os eleitores. Por exemplo, havia um político que usou a frase : "Esse trabalha"! . Eles completaram - Essa trabalha...pra ser eleito...depois nos abandonará". Um outro escreveu: "Ouvir pra fazer melhor". Eles completaram... deveria ser: fazer melhor pra ouvir aplausos e aprovação do povo. Outro tinha a seguinte frase: "Esse trabalha". Eles inseriram: Esse trabalha...pra nos roubar.  Outro utilizava: "Compromisso que se renova". Eles mudaram: "Coronel que não larga o osso". Outro que mudaram. "A Política tem jeito". Eles mudaram para "Os políticos não tem jeito". A turma do site estava excitada, pois sabiam que tinham um material explosivo nas mãos.
- Caramba. Eles trabalharam rápido. Todos os cartazes e outdoors  adulterados. Não pouparam ninguém.
- Nossa. Já tá bombando na net. Rápido. Fotografe mais
- Claro, já estou fotografando. Vai dar o que falar.
- Mas me diga uma coisa. Quem te falou que ia rolar isso?
- Recebi uma mensagem anônima só dizendo que ia rolar algo extraordinário na cidade de madrugada, que era pra guardar segredo, que era apenas para ficarmos atentos e fotografarmos antes que tirassem do ar. Vamos rápido.
- Legal. Vamos fotografar o resto. Tem cartazes sacaneados pra todo lado.
- Beleza. Enquanto isso já vou postando através do Smartphone mesmo.
- Faz o seguinte. Eu vou pro centro da cidade e você vai rodando pelos bairros, fotografando e postando no site.
- Combinado.


Eles saíram fotografando e postando. Depois de um tempo, começaram a aparecer os correligionários retirando os cartazes e colocando novos no lugar...e a polícia fazendo perguntas. Enquanto isso, o site da turma estava bombando na internet. Centenas de acessos em poucos minutos. Milhares em algumas horas. O negócio virulizou muito rapidamente. Em mais algumas horas já estava em todos os noticiários, nos telejornais e principalmente no facebook. Foi divulgada uma fotografia de uma câmera de um edifício  de um motoqueiro ninja, com a roupa toda preta e com motos também sem identificação.

No comité eleitoral, os marketeiros estavam desesperados.

- E aí? Colocaram os novos cartazes?
- Colocamos chefe. Mas tá dando problema.
- O que aconteceu?
- Os cartazes que colocamos também apareceram todos pintados. E as frases estão cada vez mais agressivas.
- Malditos motoqueiros ninja .Então vão lá e troquem de novo.
- Não adianta, chefe. O povo aderiu e tá se divertindo sacaneando os cartazes e outdoors. Você cola os cartazes e em poucos minutos o povo vai lá e pinta. E tá acontecendo no Brasil inteiro. O trem pegou...

Enquanto isso, os dois amigos estavam tranquilinhos numa pescaria, dando banho em algumas minhocas.

- E aí?
- Vshhh. Fique quieto. Não quer espantar os peixes né?
- Como consegue ficar tranquilo assim com o pau quebrando lá na cidade?
- Silêncio. Estou é pensando na nossa próxima missão.
- Qual será?
- Deixa eu maturar melhor. Mas te garanto que vai ser demais...ihh...fisgou...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

PRECISAMOS DERRUBAR ESSE TIME


ENQUANTO ISSO, AQUELE TELEFONE VERMELHO TOCOU...Trimmm...trimmm

- Alô. Qual é a senha?
- Que senha que nada. Aqui é o chefe, pô.
- Mas chefe. O sr é que falou que era pra pedir senha pra qualquer um.
- Não pra mim, né seu imbecil.
- Desculpe chefe. Mas o que posso fazer pelo senhor?
- É o seguinte. Lembra que te falei pra dar um jeito de parar o time do Cruzeiro?
- Sim. Eu já tomei algumas medidas. Já mandei apitar faltas que não existiam, anular os gols, por mais absurdos que fossem. Já mandei até uma bandeirinha gostosa pra apitar impedimento na hora errada.
- É. O coringão já faturou três títulos com essa estratégia. Contra o Inter, contra o Cruzeiro e contra o Atlético. Contra o Santos no domingo o juiz apitou direitinho pra nós.
- Pois é, chefe. Tô fazendo o que posso. Com nosso trabalho junto aos juízes pelo menos diminuiu a diferença pra dois pontos.
- É. Mas não foi o suficiente. Eles ainda estão na frente. Eu vou te dizer mais uma vez. O chefe supremo tá bravo. Você sabe o tanto que ele é doente com o time dele.
- Mas chefe. Já estamos tomando as providências certas. Tem de ser em doses homeopáticas, pra não dar muito na cara.
- Nananinanão. O chefão falou que é pra dar um jeito de derrubar esse tal de Cruzeiro é já. Vai que chega um ponto que não tem mais jeito? Onde já se viu esses times do sul e de Minas ficarem desafiando os grandes de São Paulo e do Rio?
-  Chefe, nós podemos ligar para os advogados do fluminense. Eles podem achar um jeito de desclassificar os azuis pela escalação de algum jogador. O motivo a gente inventa.
- Vamos deixar os advogados do tricolor mais pra frente. Aquele caso da Portuguesa deu muito desgaste. Mais alguma ideia?
- Tem uma que já comecei a botar em prática: convocar os jogadores do Cruzeiro para as seleções. Na primeira convocação, já levamos o Lucas Silva e o Alisson.
- Boa...agora ligue pro Dunga e diga a ele pra convocar Fábio, Dedé, Everton Ribeiro e Ricardo Goulart.
- Mas chefe. Será que isso garante? No inicio do Brasileirão o Cruzeiro tava jogando com mixtão e ganhando de todo mundo...
- Então faz o seguinte. Convide o Marcelo Oliveira pra ser auxiliar do Dunga.
- Ai vc matou, chefe. Pode deixar.
- Só mais uma coisa. Ligue pro Perrela e diga a ele pra segurar a barra lá no Cruzeiro que damos um jeito dos nossos contatos amenizarem pra ele também. E recomende que convidem o Gilvan pra chefiar a delegação da seleção em alguns amistosos e tá tudo resolvido.
- Nossa, chefe. O sr é um gênio!
- Gênio não. Eu sou é Timão...timão...timão, timão, timão...e o chefe também.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

FELICIDADE


Sempre tive vontade de pegar o trem em BH e ir até Vitória. Tirei uns dias de folga e resolvi concretizar meu sonho. Preparei uma bagagem pequena e segui em minha empreitada. Levei vários livros pra ler, principalmente de poesia, alguns cds que eu guardava a tempos para uma ocasião especial. Enquanto viajava ia reparando nos locais de parada, na paisagem ferroviária, nas características das cidades. Dava até vontade de parar para conhecer as cidadezinhas. Pois foi numa dessas paradas que fui seduzido. Passamos por uma cidade em que a estação era muito mais bem cuidada que das outras. Prédio limpinho, com jardim bem cuidado, tudo ordenado. Havia também uma pequena lanchonete, muito arrumadinha e limpa. A menina da lanchonete sorriu pra mim. No impulso, resolvi não resistir a tentação e desci do trem, sem ter ideia do que me esperava. Fui até a lanchonete.

- Olá. Um café e um pão de queijo.
- Pois não. Um real e cinquenta.
- Tem de pagar antes? Tá aqui ó.
- Obrigada. Só um minutinho por favor...
- Como é o nome da cidade mesmo?
- É Felicidade.
- E aqui as pessoas são felizes mesmo?
- Nós tentamos, né? Mas acho que sim. Aqui é bom pra se viver.
- E tem hotel na cidade?
- Tem sim. Mas se o senhor está sem carro, recomendo a pousada da Dona Dalina. Hoje é domingo e o senhor não vai encontrar taxi. A pensão da Dona Dalina fica logo ali embaixo na pracinha. É arrumadinha e limpinha. 
- Vou aceitar sua sugestão. Huum...o cafezinho tá ótimo. Agora deixa eu ir lá ...

Desci uma escadaria e fui bater na casa da Dona Dalina. Ela me recebeu e me conduziu a um quartinho muito arrumadinho nos fundos. Coloquei a bagagem sobre a cama, paguei adiantado à Dona Dalina e resolvi dar uma voltinha. Cheguei a uma praça onde havia uma tenda montada. Sentado num banquinho,um senhor parecia admirado com a beleza de uma árvore florida. Aproximei-me...

- Bonita a árvore né?
- É o que faz a vida valer à pena.
- Que delicia essa cidade hein? Tudo limpinho, muitas flores, as casas limpinhas.
- É. O pessoal não tem reclamado não.
- Mas qual é o forte da economia da cidade?
- Não tem muita coisa não. A cidade é pobre. Todos vivem com pouco.
- E o que é essa tenda ali?
- Ah...é onde o Prefeito reúne com o povo toda quarta-feira à noite pra conversar.
- Mas como assim?
- É isso mesmo. Ele toda quarta reúne o pessoal aqui pra conversar sobre o que foi feito na semana, sobre os problemas da prefeitura.
- Sério? Mas isso dá certo?
- Uai. Parece que sim, né? O pessoal não tem reclamado. Mas dá muita sugestão.
- E a Educação na cidade. Vai bem?
- Parece que sim também. Aqui a meninada vai cedo pra escola e passa o dia inteiro. Lá eles tem café, almoço e janta, além das matérias né
- E a saúde?
- Ih, moço. Aqui ninguém adoece. Temos um posto de saúde muito bom, mas o povo leva uma vida muito saudável.
- E os vereadores? Não brigam muito?
- Nada. Eles as vezes discutem, mas todos só pensam no bem comum.
- Nossa. Que bom ouvir uma coisa dessas. A gente vê tanta bandalheira no país que começa até a perder a esperança.
- E você? De onde vem?
- De Belo Horizonte. Tava passando de trem e achei a estação tão bonita que resolvi parar...
- Ah tá. Seja bem vindo à Felicidade.
- E o senhor é quem?
- Meu nome é Paulo Moreira. Sou o prefeito aqui da cidade.
- Puxa. Então tava conversando com o prefeito o tempo inteiro? 
- E qual é o problema?
- O problema é que na maioria das cidades, os prefeitos vivem distantes do povo, em suas salas ou cercados de seus puxas...
- Bobagem. O prefeito é funcionário público como qualquer outro.

DE REPENTE SENTI ALGO CUTUCANDO MEU OMBRO...

- Moço...moço...chegamos ao nosso destino. Hora de desembarcar.
- Hein? Hein?
- Chegamos a Vitória...
- Mas peraí...cadê o prefeito?
- Prefeito? Que prefeito?
- De Felicidade...
- Moço, o sr dormiu.
- Então não existe FELICIDADE?
- Sinto muito, sr. Mas sonhar e viajar é muito bom. E a felicidade é passageira. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

ALMAS TORTAS


ENQUANTO ISSO NUM CEMITÉRIO...

 - Ei...você...cadê o pessoal que tava aqui agora?
- Uai...foram embora. Acabou o enterro...
- Enterro de quem?
- Não sabe mesmo, inocente?
- Não...
- O seu enterro. Você morreu.
- Morri? Mas como se estamos aqui conversando?
- Uai. Não acreditava em espírito, em alma?
- Ah...sei lá. Achava que essa coisas eram só invenções humanas pra enganar a morte.
- Não existe morte, meu amigo. Existe passagem.
- E o que acontece agora?
- Ah...sei lá. Durante um tempo você pode virar assombração, andar no meio dos vivos.
- Assombração? Fantasma mesmo?
- Sim. É divertido. Os vivos morrem de medo.
- Mas me explique uma coisa. E os outros mortos?
- Bom, uns encarnam depressa, outros ficam na terra durante um bom tempo.
- E as pessoas enterradas aqui no cemitério?
- A maioria já reencarnou e tá na terra de novo.
- E você? Por que não reencarnou?
- Ah...me cansei de ficar nesse encarna-desencarna. Decidi ficar por aqui mesmo..
- Mas não sente saudades da carne? Do sexo, por exemplo?
- Rapaz, até que não. Mas outro dia, acredita que um casal pulou o muro e veio transar aqui dentro? Em cima dos túmulos?
- É mesmo? Caramba hein. Dá tesão mesmo.
- A moçada gosta de viver perigosamente.
- E essas garrafas de cachaça e velas pretas?
- Pois é...isso aí funciona.
- Como assim?
- É o seguinte. Alguns podem até não ter saudades de sexo. Mas sentem saudades da marvada.
- Sério?
- E o pior é que alguns entram no jogo da macumba. Começam a fazer malvadezas em troca de pinga e um pouco de farofa. Um jeito de matar saudades da matéria.
- Eu já prefiro o sexo. Será que vem um casalzinho aqui hoje?
- Nada. Isso é raro. Mas você agora é um espírito. Pode sair por ai xeretando todos os casais.
- É mesmo? Que legal. Hoje mesmo então vou ver se flagro alguns...
- Mas me diga uma coisa. Como você morreu?
- Sei lá. Eu tava numa boa. De repente tive uma dor forte no peito e apaguei.
- Infarto fulminante. Jovens infartados costumam não se salvar mesmo.
- Mas eu não tinha nada. Saúde de ferro. Fumei muito no final da adolescência, bebi um bom tanto também, mas já faz tempo.
- O lixo acumulado no organismo cobrou a conta.
- Foi duro ver minha mãe chorando, meus amigos, minha ex namorada...
- Bom.Você pode descer e ver como estão. Mas te prepara pois é doloroso. Eles vão te puxar pra baixo. E tem outra. Dentro de pouquíssimo tempo esquecerão de você e tocarão suas vidas.
- Você é pessimista, hein?
- Eu sou é realista. Mas pelo menos sou bem humorado. Mas me diga uma coisa. Vai querer reencarnar logo? Retornar à carne?
- Ah...não sei. Acho que vou ficar por aqui um pouco. Vou me divertir um pouco. E você? É uma assombração de cemitério? Mora por aqui?
- Aqui no cemitério? Que nada. Estava aqui por acaso. As vezes me dá saudade desse lugar e retorno pra ver como estão as coisas. Viajo direto. Gosto de viajar no trem da vale, de avião. Já dei a volta ao mundo umas 1000 vezes.
- Sério?
- Claro!
- Mas há quantos anos você está assim...sem reencarnar?
- Uns 500 anos...
- Mas por que isso? As instâncias superiores deixam?
- Já ouviu falar em livre-arbítrio? Ninguém é obrigado a nada. A gente volta quando quiser. Eu enjoei desse negócio de começar de novo, infância, adolescência, juventude, senilidade e morte. Mas já fiz muita coisa boa no passado.
- E qual o seu nome mesmo?
- É Paulo Moreira...(quem é de Alvinópolis vai entender)