domingo, 27 de abril de 2014

SAMYR E SEMER - NOS FINALMENTES

Samyr gravando a voz

Em maio de 2013 iniciamos a produção do CD de Samyr e Semer. Um ano mergulhando no trabalho desses sambistas, cujos nomes devem-se à descendência Síria, mas que são brasileiríssimos e carregam desde sempre a memória dos sambas imortais. Esses caras quando começam a cantar samba só param quando o galo canta...e olhe lá. Se bobear, chamam o galo para participar do samba ( diga-se de passagem: atleticanos doentes). Mas vem sendo um trabalho gratificante, feito com extremo capricho, na medida do tempo de cada um e da administração do orçamento e alocação de verbas. Primeiro ficamos conhecendo os sambas, depois partimos para a criação e produção dos arranjos, depois a adição de instrumentos ( músicos maravilhosos), depois gravamos as vozes principais, backings, etc. Esta semana deveremos fazer pequenos reparos e inserir algumas coisas que faltam. Depois será hora de equalizar, mixar e masterizar, além da produção dos encartes e prensagem. Tudo feito com muita paciência. O importante é que fique nota 11. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

JAPONÊS PICANTE

Estava em São Paulo, cidade pra mim completamente desconhecida. Como participava de um fórum sobre novas mídias, me hospedei  em um hotel próximo ao espaço de convenções. De tardinha, depois de um dia de palestras e debates, resolvi dar uma volta pela vizinhança para comer alguma coisa.  Pensei em pedir um suco e um pão de queijo, mas lembrei-me que os pães de queijo paulistas são horríveis. Optei então por um salgado e fiquei observando a fauna humana ao derredor. Chamou-se a atenção um sujeito numa mesa próxima. Tratava-se de um japonês alto e corpulento que aparentava ter uns 30 anos de idade. Japonês alto é coisa rara. Ele estava tomando uma bebida esverdeada. Parecia ser menta. Como sou muito curioso e adoro puxar um papo, perguntei se podia me juntar a ele para papearmos...e ele assentiu com a cabeça.

- Olá, amigo. Eu vim de Minas e fico meio perdido aqui em São Paulo.
- Imagine eu que vim do Japão.
- Mas você veio do Japão há pouco tempo?
- Não. Cheguei ao Brasil adolescente e nunca tive paz.
- Mas como assim?
- As Brasileiras são muito taradas e arruinaram a minha vida.
- Nossa. Conte-me essa história direito.
- Acho que foi por causa do meu nome. Minha história começou da seguinte forma. Cheguei ao Brasil e fui correr atrás de emprego. Nessa primeira entrevista as coisas já começaram a se complicar.
- O que aconteceu?
- Fui entrevistado por uma mulher mais velha. Ela me perguntou meu nome.
- E daí?
- Daí que meu nome é Tikomo. Quando falei meu nome ela caiu na gargalhada e me pegou ali mesmo.
- Uai. Foi bom então.
- Bom nada. Quando comecei a trabalhar na empresa, a chefe me chamou para explicar o serviço. Ela olhou pra mim e falou
- Meu nome é Daniela. Qual é o seu?
- Tikomo.
- Como?
- Tikomo.
- Então tranque a porta...
E ela realmente fechou a porta e me pegou.
- Nossa. Mas esse nome seu foi uma dádiva.
- Dádiva nada. Foi terrível.
- Mas você continuou fazendo esse sucesso todo?
- Mas que sucesso?  Aconteceu cada coisa. Certa vez fui pego pela imigração. Chegando lá, um funcionário meio desmunhecado me atendeu:
- O senhor está no Brasil há quanto tempo?
- Há 20 anos.
- E qual o seu nome.
- Melhor não dizer.
- Mas eu preciso saber seu nome.
- Tem certeza?
- Sim
- Tikomo.
- É pra já. Deixa eu fechar a porta então...
Consegui o carimbo no meu visto. Mas o sacrifício foi grande.
- Que coisa hein? História trágica.
- E o negócio não parou. Toda vez que eu falava meu nome, vinha uma brasileira e se aproveitava de mim. Até que finalmente eu conheci a mulher da minha vida.
- Sério?
- Sim. Uma japonesinha linda e pura. Namoramos e até moramos juntos, mas descobri que ela era promíscua e assediada por muitos homens.
- Que história triste. Bom, tenho de ir embora pois amanhã terei de acordar cedo. A propósito: como era o nome da japonesinha mesmo?

- Mikome. 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

SE DER DINHEIRO, TUDO BEM!


O filho, pela tricentésima sexagésima quinta vez, tentava estabelecer um diálogo aproveitável com o pai. Digo aproveitável, por que conversa de adulto com adolescente é só pra cobrar condutas irrepreensíveis, como se os adultos não errassem...

- Pai. Eu vi uma coisa incrível hoje.
- É mesmo? O que foi?
- Tinha uma pessoal apresentando uma peça de teatro na rua.
- Sei...
- O pessoal apresentava aquela peça Dom Quixote. O ser conhece?
- Um idiota que andava num cavalo de pau lutando contra moinhos de vento? Esse cara fumava é droga estragada.
- Quê isso, pai. Nosso professor de literatura nos falou que o Miguel de Cervantes foi o maior escritor da Espanha. Dom Quixote foi seu personagem imortal.
- Filho. Aprenda uma coisa com o seu pai. Toda vez que você analisar qualquer coisa, deve primeiro fazer uma pergunta pra você mesmo. A pergunta é : Isso dá dinheiro? Se der dinheiro, vá em frente.
- Mas pai. Essa peça já foi apresentada milhões de vezes no planeta inteiro, sempre com muito sucesso.
- Ai, ai, ai. Já vi que você está com pensamento de ser artista, né? Pois tire esse pensamento da cabeça. Assim você não vai ser ninguém na vida.
- Mas pai, tem artistas muito bem sucedidos.
- Uai. Se você quiser se prostituir e até sair pelado em revista, até que ganha algum dinheiro.
- Mas que preconceito, pai. Nossa...
- Preconceito, nada. Eu sou é realista. Veja essas atrizes todas que você conhece. Elas ganharam dinheiro mesmo foi quando mostraram tudo nas revistas de mulher pelada.
- Puxa, pai. O senhor não acredita na arte mesmo, hein? Cadê a guitarra que o senhor tocava tão bem? Cadê seus discos de rock?
- Ih...a guitarra eu troquei numa esteira de ginástica e meus discos eu joguei no lixo.
- O senhor virou um escravo do sistema. Que tristeza.
- Escravo do sistema? Mas como assim escravo do sistema? Pois saiba que esse escravo do sistema aqui é que paga as contas dessa casa.
-Tudo bem. Mas precisava ficar tão careta assim? Tão longe da arte, da poesia, do rock?
-Filho. Vou repetir mais uma vez. Guarde muito bem o que vou lhe falar. Não perca tempo com ilusões, com esses sonhos juvenis. Grave bem: Se der dinheiro, vá em frente. Se não der, dispense. Se agir assim vai se dar bem na vida.
-Aff.
- Agora você vai me dar licença pois tenho de ir ao banco pagar algumas contas...

Foi o pai sair e o  avô  que ouvia tudo no quarto ao lado chamou o neto.

-Guilherme...venha aqui.
- O que foi, vô?
- Só pra lhe dizer uma coisa. Seu pai está passando por uma fase difícil, muito preocupado em juntar dinheiro e acumular patrimônio. Um dia ele vai entender que isso não vale nada.
- Pois é, vô. Ele tá ultra careta. Não sei o que fazer.
- Então ouça esse seu velho avô. Ele falou que se der dinheiro, vá em frente. Não é isso?
- Sim.
- Então apague e coloque no lugar o seguinte:  se der prazer, vá em frente. Um dia ele vai entender isso...

terça-feira, 8 de abril de 2014

COVERS

O artesanato substitui a arte.
e a cópia rende mais que o original.
Milhões de Monalisas pelo mundo.
Aleijadinho replicado e seriado.
Salvador daqui e dali.
Relógios e tablets derretidos.
Monet na feira do mineirinho.
Portinari revestindo 
as paredes do shopping
Novidades? 
Pra que?
Curiosidade intelectual?
Demodé!
Preferíveis os covers.
Vozes, solos, 
réplicas do original.
E viva a cultura da cópia.
Os sertanejos universitários.
Os funks de boutique.
As zilhões de barbies repaginadas.
As cópias, das cópias, das cópias.
Produção em série, 
industrial,comercial.
Tudo pronto para o consumo.
Certo estão 
Paraguai e China,
piratas modernos
que copiam 
e revendem sem culpas
E quem não copia
se desajusta.
Por isso não crie, 
copie.
Antes xing ling rico
que Van Gogh na miséria.




sexta-feira, 4 de abril de 2014

MEDO DE QUÊ?

Estava na rodoviária de Monlevade esperando a hora da saída do ônibus para BH, quando aproximou-se uma pessoa e perguntou se eu era Marcos Martino que escrevia no jornal Bom Dia. Falei que sim! A pessoa falou que lia sempre a minha coluna e  perguntou se poderia sentar-se para batermos um papo. Ele praticamente me entrevistou:
- Martino. Você tem medo da morte?
- Da morte não. Tenho medo é da obsolescência.
- De obso...o quê?
- Obsolescência...medo de ficar obsoleto, ultrapassado.
- Ah...mas você está sempre se atualizando, é moderno...
- Que nada. As culturas vão sendo substituídas, novas tintas são utilizadas. Já viu aquelas paredes que a gente vai descascando e percebe que existiram várias camadas antes?
- Mas você é um cara antenado nas novas tecnologias, na internet.
- Mais ou menos. Aprendemos a viver num mundo analógico, linear. Já trabalhei com as excelentes máquinas Remington de datilografia.  Já utilizei máquinas de calcular de manivelas. Escutei música nos velhos toca-discos de vinil. Depois tive walkmans que utilizavam fitas k7. E tudo ficou obsoleto. Temos outro mundo hoje.
- Pra você, o mundo tá pior ou melhor?
- Não sei dizer. Parece que as pessoas tem uma vida mais confortável, que todos são mais bem informados, que a tecnologia iguala as pessoas, mas sei lá. Sinto que as coisas estão mais superficiais.
- Como assim superficiais?
- As pessoas leem pouco,  ouvem músicas sem se aprofundar nas letras e nos arranjos, não conseguem enxergar valor artístico em um quadro ou em uma dança, enfim, só tem valor o que é popularesco.
- Mas não seria uma dessas crenças do tipo “antigamente é que era melhor?”
- Pode ser. Pelo menos estamos vivendo essa época de transição e por isso temos como comparar. Os que nascem hoje em dia não tem nem parâmetros para comparações.
- Você tem medo do tempo?
- Tenho arrepios é quando ouço a palavra idoso.
- Mas não acha bom ter mais experiência, mais sabedoria?
- Sabedoria para entender que já não protagonizamos nada. Somos figurantes no mundo que é dos jovens. Além do mais, essa palavra idoso já carrega em si uma despedida.
- Como assim?
- Idoso é posição daquele que já foi, um ser ido...que está indo pro cemitério. O famoso pé na cova
- Você prefere melhor idade?
- Prefiro nada. Hipócrita demais. Melhor idade é dos 15 aos 26. O resto é relação.
- E sobre a morte?
- Inexorável...ainda se tivéssemos certeza sobre o que vem depois...
- Mas não acredita na vida após a morte ?
- Se houver sairemos no lucro. Se não houver, não teremos tempo de nos arrependermos por termos acreditado.
- Mas você não acredita em Deus?
- Acredito sim. Acho que existe um princípio ordenador e a humanidade sempre intuiu a presença do sagrado. Só não sei qual a cara, o nome, a pátria de Deus.
- E sobre política? Em quem você vai votar para a presidência da república.
- Olha lá, meu ônibus chegou...tenho de ir...valeu a conversa, hein? Tchau...
- Peraí...e a minha pergunta?
- Vamos fazer o seguinte? Falar de música, de cultura, filosofia, de poesia. Pra falar de política já tem gente demais.
- Vai fugir do pau?
- É claro. Do pau eu quero é distância. Basta o meu. 
- Não entendi...

- Até mais...e continue lendo a coluna...e se der, vamos interagir na internet. Tchau...