sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Pô, mãe !

Enquanto isso, a mãe tentava engatar uma conversa séria com o filho que não largava seu celular. Quanto não tava no whatsapp, tava vendo fotos no instagram, fofocas no secret, dando uma zapeada em tudo. Mas a mãe queria conversar sobre um assunto muito sério.

- Aqui...tira esse fone.
- Peraí né, mãe. Tô ouvindo um som aqui, uai...me deixa.
- Ouvindo som, né? Tô vendo aí...tá conversando com seus amigos sobre games. Isso não te traz futuro nenhum.
- Ah tá. E vocês que vão pro sitio e ficam jogando buraco.
- Ah...mas é diferente.
- E meu pai que gosta de sinuca?
- Olha aqui, ele faz essas coisas na hora de folga.
- E a paixão dele com aquele timinho dele? Acha que o time dele é o melhor do mundo. Coitado!
- Pelo menos ele gosta de vários esportes. Pior é você que só fica nesses games.
- Olha aqui mãe. Você não faz nem ideia do que está falando. Por acaso já jogou algum game?
- Não. Mas sei que isso faz mal.
- Mãe. Vem aqui que vou te mostrar dois jogos só pra vc ver. O game tá ligado. É rapidinho.
- Não quero ver...tenho mais o que fazer, menino. Além do celular, tem esse game. Ninguém merece...
- Veja esse aqui...veja o cenário...o realismo das cenas...
- É bonito mesmo. É lindo.
- Veja esse outro aqui.
- Nossa. E o que a gente tem de fazer pra jogar?
- A gente tem de entrar no jogo, interagir com os ambientes. Alguns jogos são de guerra, rola sangue, lutas. Mas tem games inteligentes...até educativos.
- Sei...mas agora vamos conversar sério.
- Ihh...já vem bomba...
- Não dá pra você continuar enrolando. Tem de pegar seus livros e estudar pras provas. E é já.
- Tá bom. Vou ter de encarar essa chatice.
- Chatice não, menino. É o que vai fazer diferença no seu futuro.
- Ah tá, viu mãe. Que diferença vai fazer eu conhecer o relevo da Groelândia?
- Mas meu filho, as coisas são assim.
- São assim, mas podem mudar, uai. Se não tá bom, a gente tem de dar um jeito de melhorar.
- Tá bom então. Vamos colocar você como ministro da educação. O que você faz para melhorar a educação no Brasil?
- Eu criarei uma revolução na educação. Na minha administração, os estudantes a partir de determinada idade poderão escolher as matérias que pretendem estudar. Não serão obrigatórias matérias chatas.
- Mas como será isso?
- Muito simples. Por exemplo eu, né? Teria aulas de matemática, física, química, mecânica, computação, administração e marketing.
- E quanto a Geografia, História, Biologia, Português, Literatura?
- Essas matérias tinham de ser só até os 11 anos. Ai a pessoa já sabe o que quer e pode escolher as matérias que acha que tem a ver, de sua vocação, entendeu?
- É...faz sentido. Mas isso significa mudar tudo. Como fazê-lo?
- Ah...isso é coisa para os técnicos. A vida é assim. Uns sonham e os outros ajudam a fazer.
- Você tá cheio das ideias né? Mas não adianta tentar me enrolar. Entregue o celular.
- Ah não mãe.
- Vamos. É agora. Tá confiscado até você fazer os exercícios de ciências e literatura.
- Puxa mãe. Achei que você ia ser compreensiva comigo.
- Eu sou tão compreensiva que vou apenas confiscar. Eu devia é jogá-lo no Arrudas.
- Nem sonha. Esse celular é mais importante que meu fígado.
- Pare de bobeira, menino.
- É sério mãe. Deixe-me sem oxigênio mas não me tire meu Samsung.
- Chega de conversa, menino. Já pra mesa estudar. Sheakespeare te espera.
- Quem?
- Sheakespeare. O maior escritor da língua inglesa. Vi que no seu caderno que a professora deu como tarefa pra casa ler uma grande obra da literatura universal. Então lembrei que tinha esse livro guardado. É um dos melhores livros de todos os tempos.
- Sério mãe? Eu vou ter de ler isso? Não dava pra deixar eu escolher?
- De jeito nenhum. Você ainda não tem discernimento. Minha obrigação como mãe é ir lhe dando alguns remédios amargos de vez em quando. Não é uma leitura fácil. Mas você vai sair melhor lá na frente.
- Lição de moral, hein mãe? Mas o meu mundo do futuro vai chegar! Você vai ver! E quando isso acontecer só vou estudar coisas maneiras.
- Mas enquanto esse futuro não chega quem manda é a sua mãe. Dê-me esse celular e já pra mesa!
- Pô, mãe...


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