sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O DEMÔNIO DA 381

Steven Campbell era produtor de cinema em Hollywood. Ele fazia filmes de terror catástrofe, sempre muito lucrativos no mercado mundial. Havia produzido filmes sobre chacinas históricas, sobre guerrilhas africanas e sobre grandes acidentes de avião, sempre com um toque de terror. Ele veio ao Brasil para conhecer os cenários do seu próximo projeto. Há um mês havia conhecido um taxista mineiro que trabalhava em Hollywood. Seu nome era Jésus. O mineiro falou pra ele:- lá no Brasil tem uma rodovia que dá pra fazer filmes de terror com cenas reais de carnificina.Tem acidentes letais e sangue a cada minuto. Steven entusiasmou-se e resolveu conhecer a tal rodomorte. Fez um intensivo de português e partiu para o Brasil.Levou seu amigo brasileiro, que ganharia um bom dinheiro para acompanha-lo. Os dois chegaram em Confins, alugaram um carro e saíram pelas brs e mgs, até que finalmente chegaram na 381. Pararam em uma lanchonete na beira da estrada, sentaram, pediram um café e começaram a puxar assunto com alguns caminhoneiros.

- Hoje a estrada tá tranquila né? Movimento menor...
- Aí é que você se engana. Quando tá assim é que o povo corre mais...e aí...você já viu né?
- Mas vocês veem acidente a toda hora mesmo?
- Você é estrangeiro?
- Sim. Eu sou Americano.
- Pois é. Percebi pelo seu sotaque. E o que está fazendo aqui?
- Eu ser cineasta. Vou  fazer meu próximo filme aqui.
- Ele faz filmes de terror...e quer fazer um filme sobre a BR 381, disse o Jésus.
- Então está no lugar certo. Olha só. Só na curva que fica aqui perto do restaurante, já morreram 97 pessoas.
- Você se disporia a ir até lá com a gente? Vamos no nosso carro. Trazemos você aqui de volta.
- Claro. Vamos até lá.

Os três pagaram a conta e foram até a tal curva. Era realmente radical. Pista escorregadia e péssima visibilidade. Eles desceram do carro.

- Vejam no asfalto as marcas de freadas. Vejam os pedaços de carros e vidros de parabrisas.
- Estou fotografando tudo.
- E essas manchas vermelhas ali...será s...
- Isso mesmo, amigo. É sangue...
- Meu Deus do céu. Mas não tem sinalização...não tem nada.

NAQUELE INSTANTE SUBIA UM CAMINHÃO...UM CARRO AO FAZER A CURVA INVADIU A CONTRAMÃO E BATEU NA LATERAL DO CAMINHÃO. O CARRO RODOU NA PISTA E CAI NO ACOSTAMENTO. O CAMINHÃO VIROU E FICOU DE CABEÇA PRA BAIXO. O CINEASTA FILMAVA TUDO.  ENQUANTO ISSO, O CAMINHONEIRO E O AMIGO TRATAVAM DE AJUDAR OS ACIDENTADOS. FELIZMENTE, DAQUELA VEZ NINGUÉM SAIU FERIDO. SÓ O SUSTO MESMO.

- Vamos embora daqui. As pessoas já estão sendo atendidas. Felizmente está tudo sobre controle.
- Amigos. Querem andar mais um pouquinho? Tem uma curva ali adiante que é muito pior.
- Pior? Mais perigosa? Vamos lá então.

CHEGARAM ATÉ A CURVA E PARARAM O CARRO NUM PONTO UM POUCO DISTANTE DA CURVA, PARA CORREREM MENOS PERIGOS.

- Aqui morreram 139 pessoas. Vários e vários acidentes. 
- Muito bom.
- Como assim muito bom?
- Muito bom para o filme. O público quer é sangue.
- Eu não te falei que essa BR era trash? Veja ali o tanto de calotas de carro...olha só...tem até carrinho de bebê, chinelos, roupas....
- É. Nunca vi um cenário de guerra assim. Já estou com o roteiro na cabeça.
- Mas o que você pretende fazer?
- É o seguinte. Vou criar uma história de um demônio que encarna nos motoristas e os fazem bater os carros.  O filme vai se chamar “O DEMÔNIO DA 381”. E vou utilizar várias cenas reais.
-Mas estão duplicando a estrada. Devem diminuir os acidentes.
- Mas aí faremos DEMÔNIO DA 381 2. A duplicação. Esses filmes número 2 costumam arrecadar até mais que os primeiros.
- Que bom que você gostou. Então vamos voltar lá pro posto pra deixar nosso amigo caminhoneiro.
- É mesmo. Eu tenho de pegar estrada daqui a pouco.
- Mas me conte uma coisa. Por que você acha que tem tantos acidentes assim. Duplicar vai resolver?
- É claro que vai diminuir os acidentes, mas enquanto não fiscalizarem direito, não tem jeito. Muitos colegas caminhoneiros dirigem a base de chumbinho. Alguns utilizam até crack, outros tomam é cachaça mesmo. Fora os motoristas com essa praga dos celulares.

NESSE INSTANTE VEIO UM CAMINHÃO DE MINÉRIO PELA CONTRAMÃO E PEGOU O CARRO DE FRENTE. NÃO DEU TEMPO NEM DE GRITAR AI.

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