sexta-feira, 8 de agosto de 2014

FELICIDADE


Sempre tive vontade de pegar o trem em BH e ir até Vitória. Tirei uns dias de folga e resolvi concretizar meu sonho. Preparei uma bagagem pequena e segui em minha empreitada. Levei vários livros pra ler, principalmente de poesia, alguns cds que eu guardava a tempos para uma ocasião especial. Enquanto viajava ia reparando nos locais de parada, na paisagem ferroviária, nas características das cidades. Dava até vontade de parar para conhecer as cidadezinhas. Pois foi numa dessas paradas que fui seduzido. Passamos por uma cidade em que a estação era muito mais bem cuidada que das outras. Prédio limpinho, com jardim bem cuidado, tudo ordenado. Havia também uma pequena lanchonete, muito arrumadinha e limpa. A menina da lanchonete sorriu pra mim. No impulso, resolvi não resistir a tentação e desci do trem, sem ter ideia do que me esperava. Fui até a lanchonete.

- Olá. Um café e um pão de queijo.
- Pois não. Um real e cinquenta.
- Tem de pagar antes? Tá aqui ó.
- Obrigada. Só um minutinho por favor...
- Como é o nome da cidade mesmo?
- É Felicidade.
- E aqui as pessoas são felizes mesmo?
- Nós tentamos, né? Mas acho que sim. Aqui é bom pra se viver.
- E tem hotel na cidade?
- Tem sim. Mas se o senhor está sem carro, recomendo a pousada da Dona Dalina. Hoje é domingo e o senhor não vai encontrar taxi. A pensão da Dona Dalina fica logo ali embaixo na pracinha. É arrumadinha e limpinha. 
- Vou aceitar sua sugestão. Huum...o cafezinho tá ótimo. Agora deixa eu ir lá ...

Desci uma escadaria e fui bater na casa da Dona Dalina. Ela me recebeu e me conduziu a um quartinho muito arrumadinho nos fundos. Coloquei a bagagem sobre a cama, paguei adiantado à Dona Dalina e resolvi dar uma voltinha. Cheguei a uma praça onde havia uma tenda montada. Sentado num banquinho,um senhor parecia admirado com a beleza de uma árvore florida. Aproximei-me...

- Bonita a árvore né?
- É o que faz a vida valer à pena.
- Que delicia essa cidade hein? Tudo limpinho, muitas flores, as casas limpinhas.
- É. O pessoal não tem reclamado não.
- Mas qual é o forte da economia da cidade?
- Não tem muita coisa não. A cidade é pobre. Todos vivem com pouco.
- E o que é essa tenda ali?
- Ah...é onde o Prefeito reúne com o povo toda quarta-feira à noite pra conversar.
- Mas como assim?
- É isso mesmo. Ele toda quarta reúne o pessoal aqui pra conversar sobre o que foi feito na semana, sobre os problemas da prefeitura.
- Sério? Mas isso dá certo?
- Uai. Parece que sim, né? O pessoal não tem reclamado. Mas dá muita sugestão.
- E a Educação na cidade. Vai bem?
- Parece que sim também. Aqui a meninada vai cedo pra escola e passa o dia inteiro. Lá eles tem café, almoço e janta, além das matérias né
- E a saúde?
- Ih, moço. Aqui ninguém adoece. Temos um posto de saúde muito bom, mas o povo leva uma vida muito saudável.
- E os vereadores? Não brigam muito?
- Nada. Eles as vezes discutem, mas todos só pensam no bem comum.
- Nossa. Que bom ouvir uma coisa dessas. A gente vê tanta bandalheira no país que começa até a perder a esperança.
- E você? De onde vem?
- De Belo Horizonte. Tava passando de trem e achei a estação tão bonita que resolvi parar...
- Ah tá. Seja bem vindo à Felicidade.
- E o senhor é quem?
- Meu nome é Paulo Moreira. Sou o prefeito aqui da cidade.
- Puxa. Então tava conversando com o prefeito o tempo inteiro? 
- E qual é o problema?
- O problema é que na maioria das cidades, os prefeitos vivem distantes do povo, em suas salas ou cercados de seus puxas...
- Bobagem. O prefeito é funcionário público como qualquer outro.

DE REPENTE SENTI ALGO CUTUCANDO MEU OMBRO...

- Moço...moço...chegamos ao nosso destino. Hora de desembarcar.
- Hein? Hein?
- Chegamos a Vitória...
- Mas peraí...cadê o prefeito?
- Prefeito? Que prefeito?
- De Felicidade...
- Moço, o sr dormiu.
- Então não existe FELICIDADE?
- Sinto muito, sr. Mas sonhar e viajar é muito bom. E a felicidade é passageira. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário