sexta-feira, 11 de julho de 2014

O GHOST MINEIRO

Gregory era um rapaz de bom nível intelectual. Não havia lido os filósofos, nem os imortais da literatura brasileira, mas era antenado e lia retalhos do pensamento ocidental pela internet como todo jovem e tinha uma característica muito comum no meio da meninada de hoje: era ateu. Não por que quisesse, mas é que a mente dele não havia sido colonizada por talibã de religião nenhuma. Por isso foi tão inusitado o encontro que se deu. Gregory resolveu pela primeira vez viajar de trem. Pegou o Vitória- Minas num dia de pouco movimento. Estava quase sozinho no vagão. Só haviam duas meninas dormindo nos bancos da frente. Foi quando entrou no trem um rapaz que aparentava uns vinte e poucos anos e foi sentar-se logo ao lado dele

- Olá. Posso sentar-me aqui ao seu lado?
- Claro. Fique à vontade...
- Um barato viajar de trem né?
- Cara, minha primeira vez...mas tô achando um barato.
- Eu adoro. Viajo todos os dias...e sem pagar.
- É mesmo? Como assim...você trabalha na Vale?
- Não...mas eu tenho um segredo.
- Legal. Eu quero ver se viajo até Vitória qualquer dia. Mas por enquanto vou só até Rio Piracicaba mesmo.
- Essa viagem é boa. Viajar é muito bom.
- Você viaja muito?
- Desde sempre...
- Meu nome é Gregory. 
- O meu era... quer dizer... é Paulo Moreira.
- Prazer Paulo. Você é da região mesmo?
- Sou de Alvinópolis. Na verdade nasci lá há muito tempo atrás.
- Legal. Lá que tem um festival de música há muitos anos né?
- Isso mesmo. 
- Mas como você faz pra viajar de trem sem pagar?
- Eles não me veem...
- Como assim não te veem?
- Se eu te contar... promete que não vai desmaiar?
- Pode mandar. Eu não me surpreendo com nada.
- Cara...eu sou um Ghost Mineiro
- Como assim?
- É isso que você ouviu. Eu sou um fantasma, assombração, espírito. Já não pertenço ao mundo sólido há pelo menos uns 4 séculos.
- Cara. Que barato.
- Você não vai sair correndo?
- Cê tá doido? Não tenho medo nenhum. Por que eu teria?
- Uai. Os vivos vivem com medo da morte...já ouviu falar do famoso buuuuu!!!!
- Não é o meu caso. Mas me explique aqui... você não quis reencarnar?
- Ah...me cansei desse negócio de encarna, desencarna. Resolvi ficar por aqui mesmo.
- Que interessante. Então você fica visível só pra quem quer?
- Sim. Agora vamos parar de conversar, pois o bilheteiro já vem e vai achar que você está doido, pois não vai me enxergar.
- Caramba. Você já deve ter zoado muita gente em sua condição de fantasma né?
- Sim. Mas hoje isso não me diverte mais. Hoje existem monstros encarnados bem piores.
- Mas você consegue então se transformar no que quiser?
- Sim. Tantos anos no planeta e consigo me transformar em qualquer coisa. Quer ver?
- Claro. Manda ver.
- Então veja ( transformou-se num lobisomem)
- Nú. Que legal.
 - Agora veja esse( transformou-se num ET)
- Que isso..Space Ghost...
- E essa forma ( virou uma assombração daquelas de lençol).
- Esse é um clássico.
- E tem esse também ó ( apareceu como zumbi)
- Mais moderno. Caramba. Que barato. Um dia vou poder fazer isso também?
- Uai. No dia em que você morrer...pode ser...
- E não tem ninguém pra regular isso? 
- Regular pra que? Tá muito bom do jeito que tá.
- E não tem mais ghosts como você?
- Ô se tem. Mas a maioria sente saudades da carne e resolve reencarnar rapidinho.
- E você não sente saudades da carne?
- Cara...não sei. Por enquanto vou ficando por aqui mesmo como ghost.
- E aqui no trem? Tem muitos como você?
- Pra todo lado tem. A população de desencarnados é enorme. O povo vem e vai a todo instante. 
- Puxa...cheguei a minha estação. Mas foi muito bacana conhece-lo. Deixa eu tirar uma dúvida. Posso apertar sua mão?
- Claro...toca aqui...
- Puxa...sua mão... achei que pudesse...
- Atravessar né? A gente pode materializar algumas partes quando quer...
- Bom, cheguei à estação. Você tá sempre aqui no trem né? Qualquer dia a gente volta a se encontrar.
- Tá combinado. No dia da sua morte estarei do seu lado pra gente bater um papo.
- Combinado então... 
- inté
- Inté...

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