quinta-feira, 22 de maio de 2014

TERAPIA OU TERABITS ?

Ficamos tentando interpretar o cotidiano, mas nos frustramos, pois o cotidiano não é estático, mas dinâmico. Constrói-se e se desconstrói a cada segundo Trocamos de pele sem perceber e não somos os mesmos de alguns dias atrás, assim como o rio que passa em nossas cidades é outro. Trem doido. Ficamos, por exemplo, tentando entender o que se passa na política. O problema é que não temos acesso ao “making off” desse filme que foi pensado por alguém ( ou por vários roteiristas), foi editado, tem seus efeitos especiais, cortes e adições, é um simulacro da realidade e não a realidade em si. Há quem diga que para uma análise racional precisamos do distanciamento histórico. Mas acho que nem isso é suficiente. As coisas ficam muito embaralhadas enquanto acontecem. O testemunha sensorial da história deveria ter um conhecimento mais fidedigno. Mas cada um tem suas convicções e interpreta a vida a partir dos próprios filtros. Além do mais, sempre aparece alguém pra reescrever à história a partir dos interesses dominantes. Quem leu 1984 de George Orwell deve se lembrar das passagens em que as notícias eram modificadas a posteriori para agradar o sistema vigente e pra esculhambar os inimigos da vez, quase sempre inventados. O cinema e a história são fábricas de ilusões, mas mesmo sabendo disso, ficamos inebriados, apaixonados pelo enredo. Nos sentimos quase protagonistas, mesmo sendo menos que dublés coletivos. O cinema e a literatura nos influenciam, isso é certo. As mensagens ficam subliminarmente na mente das pessoas. Quem viu “The Wall” do Pink Floyd teve seus impactos. Quando vemos filmes como ”A onda", temos a impressão de que o cinema transbordou e invadiu a realidade. Quantas “ondas” e quantos surfistas? E dá-lhe filmes que parecem ser inspirados na realidade. Quem já viu “a Teoria da Conspiração”? Alguém viu o último do Costa Gravas, “Le Capital”? Conta a história de investidores que manipulam as finanças mundiais, um game global, onde crises são criadas para gerar lucros, um mundinho frio e vil muito longe do mundo dos mortais. Aliás, os mortais são como aqueles monstros dos games que lutam contra os heróis. O sangue que jorra, enfeita a trama. Aliás, que sede de sangue tem a humanidade desde tempos imemoriais. O sangue dos games não suja a sala, não dói fisicamente. Mas que há uma perversidade esquizofrênica, isso há. E esse facebook? Esse negócio é a droga mais viciante jamais inventada e totalmente liberada, sem contra-indicações. Uma espécie de psicanálise compartilhada. As pessoas andam ávidas por audiências, querendo encontrar quem se sensibilize com seus dramas pessoas, suas lutas, seus lutos. Terapia ou Terabits? Eis a questão! Um ex-amigo passou por mim na rua, me olhou no fundo dos olhos e não me cumprimentou. Ficou meu inimigo por causa das minhas opiniões na net. Não admite pensamentos divergentes. Seu partido político é um espécie de Deus inquestionável. Qualquer crítica é encarada como profanação, blasfêmia passível de demonização. Eu hein? Mas esse facebook tem isso. Antes, os grupos de afinidade se reuniam e conspiravam. Hoje expõem na net o seu ponto de vista e fomentam algumas inimizades desnecessárias. As pessoas se encontram e se desencontram por afinidades. Esse face é uma praga. Depois da Bomba H, talvez seja a arma mais poderosa jamais inventada. Ironia que essas invenções da pátria do capitalismo tenham essa denominação de mídias sociais. A esquerda havia se apropriado desse termo "sociais". Mas os americanos vão inventando as modinhas virtuais e disseminando pelo mundo. Hoje tem o whatsapp por exemplo que realmente conecta as pessoas e os mais pessimistas preveem uma geração idiotizada. Será? Hoje em dia, um adolescente pode ir ao polo norte, mas ainda assim estará conectado com sua turma. E da-lhe selfies com esquimós. Se isso é bom ou mal, só o tempo...

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