sexta-feira, 2 de maio de 2014

PESQUISA MALDITA

Estava sentado na rodoviária de Belo Horizonte esperando um ônibus, quando se aproximou uma moça que aparentava uns 18, 19 de idade. 
- Meu senhor. Se importaria em responder um questionário? É que estou fazendo meu TC da faculdade e preciso entrevistar algumas pessoas.
- Pois não. Fique à vontade.
- O senhor pode responder tudo e nem precisa dizer seu nome, tá?
- Ok. 
- O senhor é casado ou solteiro?
- Casado.
- É catolico ou evangélico.
- Eu acredito em Deus. 
- Eu não tenho essa opção aqui. Escolha a que simpatizar mais.
- Eu não posso fazer isso. Não seria honesto.
- Tá bom...vamos deixar essa sem resolver. Vamos à próxima. É cruzeirense ou atleticano?
- Sou Cruzeiro. Mas o que isso tem a ver com a sua pesquisa?
- Tem tudo a ver. Reflete no perfil psicológico. Vamos à próxima. Qual o seu estilo musical preferido: Sertanejo universitário, funk, pagode, arroxa ou axé?
- Nenhum desses aí. Eu gosto é de rock.
- Ih...seu gosto musical tá muito antigo. As pessoas ouviam esse tipo de música mais nos anos 60 a 80. São os ritmos da época dos nossos avós. Já para os bisavós e tataravós tem os boleros, os tantos, os foxtrotes. Vamos deixar essa sem responder então. Vamos à próxima.O senhor vai votar no PT ou no PSDB?
- Em nenhum dos dois. 
- Mas simpatiza com a esquerda ou com a direita? Com o capitalismo ou com o socialismo?
- O ideal seria pegar o que tem de bom nos dois lados e fazer um só.
- O sr é a favor da copa?
- Eu acho o seguinte. Já que tá tudo pronto, que foi tratado há 7 anos atrás, já que ta aí, vamos curtir,  
 É temente a Deus?
- Eu respeito.
- Acredita em discos voadores e extraterrestres?
- Claro que sim. E o mundo espiritual então? Tem criaturas de luz e seres das trevas.
- O senhor se considera de qual classe social?
- Depende. Econômica eu sou classe C. Temos o necessário pra viver. Sem excessos. Agora, em termos de cultura acho que sou B. Nisso tem um disparate.
-  Tem quantos computadores em casa conectados?
- Deixa eu pensar...4
- E smartphones? 
- 6.
- Tudo conectado 24 horas?
- S...im!
- Você conseguiria viver desconectado?
- Já pensei nisso. Mas vou lhe dizer uma coisa. Quando a gente vai para um lugar e não tem sinal nem de celular, dá uma aflição danada.
- Acha  que conseguiria viver off-line?
- Minha querida. Você é que é muito nova nesse planeta. Eu passei a maior parte da minha vida vivendo num mundo analógico. Não havia internet nem essa cultura virtual que vem da informática.
- Eu sempre me perguntei isso. Como é que passaram esses milênios todos sem whatsapp?
- Me desculpe, mas tá quase na hora do meu ônibus.
- Só mais duas perguntas. Você vai sempre para o interior, não é?
- Sim.
- E o que acha da saída da rodoviária desse lugar aqui?
- Acho muito ruim mesmo. Pra gente que vem do interior, principalmente pros que vem pra resolver problemas no centro, a gente descia na rodoviaria, já almoçava por ali perto, costumava ter até hotéis baratos por ali. Pra quem vai pouco então é muito útil. Agora vão mudar a rodoviária pra longe. Será que consultaram o povo? Com certeza que não. 
- E para o governo de Minas? O que o senhor acha que vai dar?
- Vai ser ardido de qualquer jeito.
- E quem ganha a copa?
- Eu não ouso arriscar. Vamos ver se nossa seleção vai empolgar. Os maiores craques do mundo estarão jogando no Brasil. Acho que vai ser legal.
- Meu senhor, muito obrigado. Sua entrevista será bem útil. Pode me passar seu email? Quando estiver com o material pronto, faço questão de lhe encaminhar a pesquisa.
- É claro. Deixa eu anotar pra você.Seu trabalho é sobre o que mesmo?
- Sobre o comportamento das pessoas que estão entrando na melhor idade que nem o senhor.
- Ah...tá! Só uma coisa. Melhor idade é o caralho! Deve ter sido essa boina que me deixa mais velho ainda.
- Não tire não. É simpática.
- Aqui...tenho de ir. Meu ônibus vai sair.
E saí dali com aquela frase na cabeça: Melhor idade é o caralho. Melhor idade é o caralho... 

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