sexta-feira, 9 de maio de 2014

EU AMO VO...

Ele pegava o trem em Belo Horizonte pra fugir da 381 e desembarcava em sua cidade algumas horas depois. Ele se considerava um sujeito de sorte por vivenciar a experiência de viajar de trem, um travelling por uma região maravilhosa que ele amava. Só que naquela manhã ele não encontrou passagem de trem. Era a segunda vez que ia direto pra estação e não encontrava passagem. O trem tava ficando concorrido demais. Teve de caminhar um pouco até a rodoviária e comprar passagem para a sua cidade. Ele já sabia. Poderia comprar passagem para daí a 45 minutos. Aproveitou para sentar-se numa das mesas próximas ao café, que tem tomadas pra ligar os notebooks e dá pra usar a internet numa boa. Deu uma conferida no facebook, nos emails e ficou ali ouvindo o sotaque da mineirada do sul e do norte. A Rodoviária é ponto de encontro dos capiaus com seus sotaques. Uma covardia tirarem a rodoviária dali. Fico imaginando o matutos do interior, que apeiam ali na meiuca de Belo Horizonte e saem pela cidade olhando o tamanho dos prédios. Eles vão perder essa referência. Terão de descer lá nas lonjuras. Será que BH quer rechaçar os caipiras? Será que BH tem vergonha de suas origens? Vai saber. Mas a Rodoviária pulula de vida. Quem ouve de longe deve imaginar uma colmeia. Ele tomava seu café quando a locutora avisou que daí a 5 minutos saia seu ônibus. Quando ajeitava pra sair, apareceu uma pessoa com a qual não falava há anos. Ela veio puxando papo e ele querendo ser educado. A amiga ainda teve tempo de registrar um selfie pro face. Ele despediu-se e desceu a escada correndo. Olhou o número da poltrona. Número 7. Ele não gostava de ir na frente, mas foi esse número que a vendedora de passagens lhe passou e ele nem conferiu. Ele pegou seu mp3 player e ligou. Queria ouvir as notícias na Bandnews. Ele adorava música e hoje só gostava de ouvir notícias. Sinais da idade avançando. Ele acomodou-se e ficou observando a paisagem, O ônibus seguia devagar. Ligou o smartphone e nada de sinal de internet. Tédio. Resolveu pegar a pasta de trabalho pra escrever qualquer coisa, quem sabe uma poesia. Ficou com a caneta na mão, mordeu a tampa, olhou para o papel em branco esperando que a inspiração viesse. Mas o que veio mesmo foi um caminhão na contra-mão. O impacto foi violento e ele veio a falecer. Em sua mão foi encontrado um bilhete escrito: Eu amo vo...

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