sexta-feira, 14 de março de 2014

PAIXÕES DANOSAS

           Eu pelo menos estou procurando um jeito de desapaixonar.
Crescemos com a ideia de que a paixão é uma coisa boa, carregada de romantismo adolescente ou tardio.
As pessoas utilizam a palavra paixão pra tudo.
A menina diz que ama de paixão, o sujeito diz que tem paixão pelo seu clube, o militante é apaixonado pelo seu partido e é capaz de qualquer coisa por ele.
A paixão é cega, surda e muda. Veja o caso dos apaixonados (românticos). Não conseguem enxergar o mínimo defeito nas pessoas amadas. Até o peido da pessoa amada é cheiroso.
E o apaixonado político? Ah, os companheiros não são ladrões. Ladrões são os outros.
E os torcedores apaixonados? Não conseguem apreciar um bom futebol jogado pelo adversário. Não podem admitir que o outro time jogou bem, que foi superior. Sou torcedor do Cruzeiro, mas estou procurando me desapaixonar pra ver as coisas como elas são. Toda vez que o time perde a gente tende a dizer que nosso time perdeu por que jogou mal, por que o treinador não tá com nada, por que o juiz roubou. Não conseguimos admitir que o outro time também é bom e jogou melhor. Tremenda lente estragada. 
Esse negócio de paixão não está com nada.
A paixão é uma espécie de caverna de Platão. O grande filósofo criou a metáfora da caverna, onde algumas pessoas ficavam confinadas numa profunda escuridão. A pequena luz que penetrava no recinto projetava sombras fantasmagóricas nas paredes e as pessoas ali confinadas imaginavam que no mundo exterior só havia monstros e seres assustadores. Por isso, ninguém tinha coragem de sair e viviam na ignorância. A paixão faz isso com as pessoas. Só que de um jeito diferente. As pessoas veem projetadas nas paredes da caverna escura as imagens perfeitas das suas paixões e tudo o mais representa perigo, tudo é ameaça, todos são inimigos, adversários, alvos para o ódio.
Aí é que está o ponto mais perverso das paixões. Elas não pressupõem apenas amor, como é romantizado e explorado na literatura ou na música.
Os sertanejos gostam de usar o termo “xonado”, entortam a cara na cachaça e acabam sendo passados pra trás, isso por que os apaixonados ficam bobos, não enxergam malícia nas pessoas em que projetam suas paixões travestidas de amor. E o pior. O apaixonado, ao mesmo tempo em que “ama”, odeia com a mesma intensidade. E é um ódio selvagem, completamente irracional.  O sujeito apaixonado é capaz de matar ao sentir-se ameaçado. Se a pessoa amada resolve terminar o namoro, mergulha no inferno na terra e sofre uma dor insuportável, muitas vezes chegando ao suicídio.
Os torcedores apaixonados também não ficam pra trás. Tem torcedor que deixa de comer, de colocar dinheiro em casa para pagar caríssimos ingressos e ver seus times nos estádios. Chegam até a viajar para o exterior para acompanhar seu time, se endividando e prejudicando suas famílias. Partem para a violência, agridem os amigos e perdem a compostura. Os torcedores do time adversário tornam-se inimigos e no fundo há um sádico prazer no exercício do ódio.
Os apaixonados políticos também odeiam com força. Os adversários representam o que de pior existe na face da terra. Para desmoralizar os inimigos, os apaixonados são capazes das maiores atrocidades.  Caluniam, sabotam, agridem, vaiam, fazem tudo em nome de suas paixões.e do ódio decorrente. 
E o mais grave de tudo: todas as guerras foram motivadas pelas paixões. Nas trincheiras estão os apaixonados, motivados na maioria das vezes por razões artificiais, criadas pelos que detém o poder, que ensinam as pessoas a se apaixonar pela sua bandeira e odiar os adversários.  
Alguém vai dizer:- Ah, Martino. Vai me desculpar, mas são sintomas da velhice chegando e do tesão em declínio. É! Pode ser a maturidade chegando, as ilusões moribundas, a temperança de quem já se apaixonou demais e começa vislumbrar o fim do túnel, a tal idade da razão que verga as vontades. Aff! Antes tarde do que nunca. A cada dia me sinto mais leve, deixando para trás fardos tão pesados. Prefiro o amor, um sentimento menos raivoso, mais compassivo e duradouro. Costuma transcender até a morte.Como dizia Renato Russo, "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã". Desapegar-se dos sentimentos destrutivos, negativos. 

Paixão? Prefiro o pai chão. Este sim solo fértil onde a vida viceja. O resto é sombra na caverna. 

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