quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O MATUTO, O PROFESSOR, UMA PESCARIA....


ENQUANTO ISSO NUMA PESCARIA

_ Nem sinal de peixe...
- Caaaaalma.
- Tá bom. Então vamos conversar um pouco pois tá um tédio isso aqui.
- Você é professor lá em Bilizonte, né?
- Sim. Por que?
-  Ocê que é intelectuá da capitar me isprica uma coisa. Hoje o Padre falou que a gente tem de curtivá os valor. Eu fiquei sem entendê. Curtivá valor? Será que é pra nós prantá dinheiro? Valor não é dinheiro, patrimônio, posse?
- Não, Zé. Na cidade quando a gente fala de valor, estamos falando daquelas qualidades tipo honestidade, sinceridade, entendeu?
- Ah tá. Engraçado qui outro dia teve um moço que fez uma palestra pra nós, os produtor rurar da área aqui. Ele também veio com esse papo de valor, de planejamento.
- Pois é. Toda empresa quando faz planejamento tem o desafio de determinar quais serão os valores que nortearão a conduta da empresa. Tem também de determinar missões, objetivos, mas o alicerce é construído sobre os valores. E esses valores quase sempre são: ética, comprometimento, Desenvolvimento Sustentável, excelência, responsabilidade social e por aí vai.
- Mas funciona?
- Funciona nada. Na maioria das vezes só pra constar mesmo e dar um charme ISO isso, ISO aquilo.
- Mas João...que pito é esse que ocê tá pitano?
- Ah...é pra espantar musquito...ganhei de um cumpadre hoje.
- Bão hein?
- Ah...sei lá. No fundo é consumismo,
- Consumismo? Nunca vi essa marca de fumo.
- Não, Zé. Prestenção. Não é o cigarro, mas o produto. Num mundo marcado pelo consumismo psicótico, os considerados valores humanos são atropelados, quando não ignorados no dia a dia.
- Vixe. Agora ocê falou difícir. Mas entendi. Antigamente as pessoa eram mais respeitadora, não eram como hoje em dia.
- Exatamente. Quem tem mais de 40 anos se lembra bem. Vivemos uma época em que havia mais temor a Deus. A igreja católica difundia mais a fúria de Deus e sua inclemência com os pecadores. Havia castigos e penitências, como o ato de ajoelhar-se sobre bagos de milho para pagar pecados mais fortes, tinha penitências de 1000 aves marias para pecados um pouco mais leves.
- É mesmo. Eu já rezei 300 terços uma vez.
- Pecadim pesado esse, hein cumpadre?
- Naaada.
- Mas já foi até pior. Num passado um pouco mais remoto, havia as guilhotinas e fogueiras santas pra excomungar o demônio do povo cortando algumas cabeças em praças públicas.
- Eles gostavam de cortar o negócio duzotro também, né?
- Isso eu não sei.  Eu já tive muito temor quando criança. Do meu catecismo, lembro-me de uma senhora nos dizendo que não podíamos mastigar a hóstia, pois estaríamos mastigando Deus.  Eu botava a hóstia na boca e ficava muito tempo esperando ela derreter.
- Eu até qui gostava. Tinha um gostim gostoso.
- Que isso, Zé. É pecado.
- Brincadeira.
- Mas naquele tempo, a moralidade da igreja e da sociedade é que determinava as relações. As pessoas aprendiam sobre a importância de estender a mão aos que tinham necessidades. A sinceridade era outro valor cultivado. As pessoas que caíssem no pecado da mentira teriam de se entender com Deus pai todo poderoso, sentado em seu trono gigante e julgando os vivos e os mortos.
- Nossa senhora. Eu tinha um medo dele jogar um raio na minha cabeça.
- Pois é. Por essas razões, a honestidade era um valor. Humildade também era considerada um valor, com exemplos como São Francisco de Assis e o próprio Jesus Cristo. Mas a moralidade religiosa foi perdendo terreno para a moralidade midiática.
- Aí vc falou difícir...
- Vou explicar. As pessoas deixaram de frequentar os templos e passaram a criar templos em suas próprias casas, botando nos altares suas tvs e hoje os computadores.
- Peraí, cumpadre. Mas vc acha que as tvs tomaram o lugar das igrejas?
- Mas é claro. Foi o fim do monoteísmo. As Tvs disponibilizam uma imensa quantidade de líderes, de pastores, de santos e Deuses. E esses Deuses tem outros padrões morais, quase sempre conflitantes com o recato de alguns anos atrás.
- Mas peraí, cumpadre...Tem os crente...
- Bem lembrado, Não só os evangélicos. Tem católicos, budistas, muçulmanos, tem até ateus que tem uma vida alicerçada em valores humanísticos. Não podemos ser injustos com aqueles que conseguem viver à margem desse mundinho do consumo, onde os valores são difusos, hiper segmentados, pragmáticos e quase sempre desumanos. Mas devemos reconhecer que representam uma absurda minoria.
- E teve uns que nem é santo, mas tem valor né? Esse tar de Mandela por exemplo, parece um santo.
- Pois é. Algumas pessoas são santas mesmo.  Se vivemos a época do narcisismo, da exposição das vísceras, do jeitinho brasileiro que justifica a corrupção, há também aqueles que escapam por encontrar um sentido para sua vida, com valores bem definidos e compartilhados.
- Mas João. Tenho de ir embora pois a Jandira tá me esperando pra jantá. Só uma última pergunta. Será que nós brasileiro não temos valor nenhum?
- Eu também vou nessa. Mas também não é assim Zé. Temos valores sim. O povo brasileiro é hospitaleiro, solidário, tem suas qualidades, mas precisa cultivar outros bons valores pra dar um salto civilizatório...e eliminar algumas ervas daninhas. Inté.
- Inté!

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