terça-feira, 19 de novembro de 2013

MEU NAMORO COM A CULTURA MONLEVADENSE

Cia do Infinito,  O Salto, Acordar,  síntese da arte Monlevadense.

Primeiros contatos

A minha interação com o meio artístico de Monlevade começou na época de festivaleiro na década de 80. Tive a oportunidade de conhecer excelentes compositores e intérpretes, como Chico Franco, Roilson e Jacqueline Silvério. Rômulo Rás veio um tempo depois. Conheci também a grande cantora Neide Roberto, que foi apresentar-se em Alvinópolis. Eu e meu grupo Verde Terra de Alvinópolis rodávamos pelo estado participando de festivais e vencemos uma das edições do Festival da Música em João Monlevade num ginásio do grêmio cheio, com a música “Interior”. Desta época, minhas referências foram Wilson Vaccari, Guido Walamiel e João Bosco Pascoal, que nos deram grande estímulo.

A cultura nos anos Prandini.

Há alguns anos estava navegando na internet quando uma pessoa me procurou via MSN. Fiquei surpreso. Tratava-se do novo prefeito de João Monlevade, Gustavo Prandini. Começamos a interagir e desde então não paramos mais. Depois de muitas conversas virtuais e presenciais, aceitei o desafio de trabalhar na administração Prandini, onde dei meu melhor e pude aprender como funciona uma administração por dentro. Prandini é um amigo fraternal por quem nutro gratidão, respeito e amizade.

Na comunicação

Iniciei minha temporada em João Monlevade como Assessor de Comunicação da prefeitura, paralelamente atuando como presidente da fundação casa de cultura (sem remuneração). Depois de mais ou menos um ano, continuei colaborando com a comunicação, mas não mais como assessor, dedicando-me mais às atividades na área da cultura.  

Imersão

Pude fazer novas conexões, vivenciar uma nova fase na produção cultural da cidade, interagir com uma geração muito criativa e promissora. Foi um período difícil por causa da frustração com o cancelamento da duplicação da ARCELLOR. O dinheiro que se imaginou não chegou aos cofres municipais, e com isso, tivemos de frear os investimentos e não deu pra fazer tudo que sonhamos. Mesmo assim, conseguimos fazer muita coisa.

Muito trabalho e solo fértil

Penso que tivemos um período de grande efervescência cultural  Procuramos promover concursos literários e fotográficos e produzimos publicações com as obras. Realizamos o FESTIAÇO (festival da canção), com artistas de vários cantos do país e com uma novidade interessante: foi pioneiro no sentido de ser transmitido via web para todo o planeta. Levamos para a cidade o Festival de Artes Cênicas, um fantástico Festival de Teatro que sacudiu as ruas e promoveu oficinas para os artistas locais. Em todas as festas da cidade, procuramos garantir oportunidade aos artistas locais e retornamos com o Rock na Rua, abrindo a Praça do Povo para a cultura e a arte. Também trabalhamos no sentido de resgatar o carnaval com o PRÉ-FOLIA e seus blocos, a cada ano maior, compostos pelos grupos de terceira idade, pelos universitários e tantos outros. Foi muito bacana também a iniciativa da primeira dama Daniela que resgatou o espírito natalino com os enfeites da Natal feitos com material descartável, encantando todo mundo e tornando a cidade muito mais linda e humanizada. Trouxemos grandes artistas nas festas e tivemos momentos especiais de fé como a vinda da imagem da Nossa Senhora de Aparecida e o show do padre Fábio de Melo. Apoiamos lançamento de livros de autores monlevadenses como Jairo Martins, Diego Ventania, Ledinilson Moreira entre outros e realizamos mostras culturais , ampliamos as vagas nos cursos e realizamos projetos ousados e pioneiros como a gravação do CD Cenas da Periferia, composto de músicas de funk e rap de artistas da cidade(que infelizmente só ficou pronto no final do mandato e não foi devidamente lançado até hoje). Outro dado importante que eu quase ia me esquecendo, é que, apesar das polêmicas, a Casa de Cultura finalmente teve sua sede própria, algo histórico, anseio antigo da comunidade artística. Vale citar, que também criamos vários eventos em parceria com o Sindicato dos Bancários, como o 5ª Cult, com shows como o Beatles Forever, Tributo ao samba, Metal Atack, shows com diversos artistas locais. Vimos nascer e apoiamos projetos interessantes como o Caminho de Riquezas, do poeta e jornalista Marcelo Melo. Também vimos crescer e procuramos interagir com projetos independentes, como a ACORDAR CULTURAL, um projeto em franco crescimento que por enquanto congrega artistas monlevadenses, mas que almeja juntar os artistas da região.

ALGUMAS FRUSTRAÇÕES

Havia um projeto para a gravação do lindíssimo hino de João Monlevade. Cheguei a gravar uma versão apenas ao violão e voz e criei um clip fotográfico com fotografias do Sergio Henrique Braga e outras antigas. Mas não conseguimos parceiros suficientes para viabilizar a produção. Fiquei triste também por não termos conseguido dar continuidade ao Festiaço e de não termos lançado o Cenas da Periferia com maior ênfase. O arrocho financeiro no final do governo acarretou muitos ajustes e cortes. Deixamos encaminhada a construção do Memorial do Aço no Areão, mas pelo que foi divulgado, o novo governo  não pretende dar continuidade e também não pensa no Areão como parque ambiental. Mas, muitas vezes o que é divulgado não corresponde à realidade ou corresponde apenas a meia realidade. Só quem já esteve no governo pra entender isso. Todo prefeito e equipe sonham em fazer um monte de coisas, mas há  pedras no meio do caminho e não dá pra fazer tudo que se sonha. 

CONEXÕES

Hoje me distanciei um pouco da João Monlevade física, mas continuo virtualmente conectado à cidade, mantendo laços de amizade com os artistas, mais ou menos antenado ao que acontece na cena. Além de amigo, sou fã da maioria. Vejo que a turma do Cia do Infinito, o pessoal do Soul do Samba, João e André Freitas e o projeto Esboço continuam produzindo bastante. A turma do Golpel também continua fazendo acontecer, como Mark Jr e o pessoal do 'Totalmente Dele'. A turma do sertanejo também tem lançado coisas novas, como Livvia Bicalho e Amanda Alves. Maycon e Douglas andam meio sumidos. Fabrício partiu em carreira solo e Elcimar continua produzindo muito em seu estúdio. Josagno anda meio parado com a música também. Fico triste que alguns projetos como The Travels e Umbigo Trio tenham dado uma parada. A banda Desarme anda menos ativa, o mesmo acontecendo com o Rosenblack. Tenho ouvido falar menos do Derramasters e do The Mistake, assim como do Flying High.  E o meu amigo Rogério com sua Banda Di Rock? Isa Lelis lançou single novo e quem conhece, aguarda mais material. Daniel Bahia é um professor agitador com mil projetos na cabeça, muitos parceiros e grande criatividade.  fez um video bem folk, junto com Letto e João Freitas, concebeu uma música que foi o tema de um video lindíssimo. muito interessante.  A turma funkeira também continua agitando as nights da região. No cenário da poesia, tem a poetisa Maria das Graças Gomes, que lançou diversos livros lindos de forma totalmente independente. Ela está lançando agora um novo livro que dialoga com a poesia nas letras do Paulinho Pedra Azul. Não posso deixar de citar também outros craques como Raphael Godoy, com seu Escritos Esparsos e Luiz Ernesto, que lançou um belo livro de crônicas. Outros artistas, o Josagno com sua arte em arame e André Freitas, com suas maquetes que vem encantando o país.  A Acordar Cultural também foi um achado. Se a prefeitura um dia resolver desativar a FCC, a Acordar dá um jeito de manter a chama. Vem  promovendo seus piqueniques cuturais e evoluindo seu projeto. Tem os congados não só de Monlevade, mas das cidades vizinhas, muitos deles com mais de 300 anos. Isso prova que o Dindão tem razão. Sem fé e sem coração, nada perdura. O certo é que passam prefeitos, passam governadores, passam vereadores, mas a arte continua sendo cantada, falada, lida, vista.

FCC DE JOÃO MONLEVADE HOJE

Conheço grande parte dos que trabalham na Fundação Casa de Cultura hoje. Muitos são meus amigos. Fizeram um trabalho maravilhoso na reforma do novo prédio. Tomara que sejam cada vez mais “prestigiados” para que possam fazer acontecer. 

A CULTURA É O PATINHO FEIO

As administrações muitas vezes tem de trabalhar com austeridade por causa das crises, até para colocar as "casas em ordem" em alguns casos. Nestas horas, os primeiros cortes são feitos nos setores considerados não prioritários. E o primeiro setor em que os gestores pensam em cortar é na cultura. Ninguém come cultura. Quando o prefeito não tem sensibilidade artística então, investimento zero. Os artistas é que são teimosos por natureza. Passam por necessidades, fazem penitências, passam fome, perdem os dentes, mas encontram um jeito de sobreviver e cumprir seus papéis.

TORNEIRAS FECHADAS

Pelas notícias que circulam, o investimento em cultura caiu bastante na maioria das cidades.Dizem que as prefeituras por enquanto não vão gastar com cultura, pois estão lutando bravamente para colocar as contas em dia. Vão deixar pra investir mais nos últimos dois anos, mais perto das eleições. Ai dá pra contratar umas duplas sertanejas e fazer a festa pro povão. Essa que é a verdadeira cultura no ver de alguns políticos. Ainda bem que não são todos.

CRÍTICAR SÓ POR CRITICAR? NEM PENSAR!

Só quem já esteve do outro lado pra saber como doem as críticas infundadas. As pessoas trabalhando, dando o seu melhor e sendo enxovalhadas na mídia, nas redes sociais, nas conversas pelas esquinas. Sofremos muito e não desejo isso ao pior inimigo.

A CULTURA SOBREVIVERÁ...

De qualquer maneira a cultura continua e continuará fervendo. Vejo por exemplo, os amigos conversando nas redes sociais e projetando um final de ano repleto de acontecimentos. É muito bom isso. A turma bota a mão na massa, as instituições, a própria cidade abraçam. Mesmo que alguns gestores não consigam enxergar valor no fazer artístico, ela continua viva porque tem gente que gosta, que vive, que luta pela arte. Aliás, faltou falar sobre da rede de amigos, de artistas, dos fãs da cultura e das equipes com as quais trabalhei. Pessoas competentes e amigas como Luciano Roza, Gladevon Costa, Rosália, Laura, Serginho Boladão, Doca, além dos professores e da equipe de suporte da prefeitura. Tem a galera das sonorizações da cidade com os quais tive prazer em trabalhar, como Tony e Amintas, profissionais ao extremo, como Miltão, companheiro e amigo desde a época dos bailes com o Magnus som, tem também o Rogério de Castro, sujeito criativo e pau pra toda obra. E tem a rede voluntária. Pessoas como o Francisco Barcelona, fotógrafo escritor e memorialista, um saudense operário da cultural. O Professor Dadinho é outro manancial de conhecimento, muito solítico. Pessoas como a Lutécia e sua irmã Júnia, como a Carla Lisboa, que hoje está na FCC (no lugar certo) e mesmo que não estivesse, estaria  promovendo a cultura do mesmo jeito, pois está em sua alma e ela já fazia isso muito antes de estar lá dentro, como a Dona Therezinha com seus folguedos, tem ainda os corais, tem a turma do MatoaDentro, tem Rômulo Rás e a herança musical de Neide Roberto. Rômulo integra um grupo que pra mim tem um nome genial: "afilhados do sereno". Samba de raiz muito bem tocado, tem Ronivaldo e João Roberto e seu vocal maravilho, tem Cila Cordeli, tem Guilherme Calk,  tem Banda Agá,  tem Sapeca Iaiá,  Tambores do Morro, as bandas de música, os congados e as guardas de marujo, enfim. uma riqueza imensa. E me perdoem os não citados e sei que existem muitos de enorme relevância, mas não deu mesmo pra interagir com todos. Com uns mais, outros menos. Mas sinto-me honrado e grato por ter participado de uma cena tão fértil, tão pródiga de bons valores E fico pensando. A arte se faz pela necessidade dos artistas em expressar suas subjetividades, mas se estabelece e demonstra sua pujança quando o ambiente é propício. 

CONJUNTURA POSITIVA

O bom momento vivenciado deveu-se a uma conjunção de fatores, princípalmente o  cenário fértil, mas também porque tivemos um poeta prefeito. Prandini pode ser criticado por muitas coisas, e foi como poucos na história de João Monlevade, mas revelou-se um sujeito afeito aos bons textos, versado em Fernando Pessoa, Quintana, que estudou teologia, que tem conhecimento da Bíblia Cristã, dos fundamentos do Corão e ainda se arrisca na prosa e na poesia. Isso ninguém tira dele. Prandini tinha (e tem) sensibilidade no que diz respeito à arte e cultura. Na época foi chamado de poeta como se xingamento fosse (só quem é artista conhece essa dor). E como falta poesia na vida das nossas cidades...

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