quarta-feira, 11 de setembro de 2013

VENENOS LIBERADOS

A água é veneno. Consumida em excesso, mata por afogamento. Tudo em excesso é veneno. Tá certo que alguns venenos matam em doses menores. O curioso é que algumas substâncias altamente mortíferas tem consumo incentivado e até glamourizado. Por exemplo: todo mundo adora um churrasquinho. com muita carne gorda, linguiças babando de tão gordurosas e muitas caixas de cerveja, não é? Ninguém para pra pensar que se trata de uma combinação altamente prejudicial à saúde, responsável por um exército de gordos e barrigudos. Mas quem vai abrir mão desses prazeres? Vamos morrer pra lá. Outro exemplo de veneno liberado. É sabido que os refrigerantes são altamente prejudiciais, que causam doenças como a obesidade, reconhecidamente um dos maiores problemas de saúde pública dos dias de hoje. Mas quem vai abrir mão dos refris e das suas borbolhas refrescantes? E o Bacon? É veneno para o coração vendido indiscriminadamente. Tem ainda as guloseimas, cheias de açucares e substancias nocivas à saúde. Mas a cultura do consumismo incentiva o pensamento do viver intensamente o aqui e deixar o depois pra depois. O indivíduo pensa: - Ah, um dia vou morrer mesmo, então vou ser feliz é gora. Perdeu-se a espiritualidade que nos tornava mais responsáveis pelo que fazíamos com nossas vidas, antes considerados dons de Deus e, portanto, sob nossa responsabilidade. O destemor do juízo acaba relaxando o arbítrio. Como disse o Lobão em sua música “Decadence, avec elegante”, antes viver 10 anos a mil do que mil anos a dez. Tá certo! No fundo é a própria vida quem vai nos matar para que outras gerações nos sucedam. A única coisa que podemos fazer é tentar estender um pouco mais o nosso tempo na terra através das nossas atitudes. Resta saber se tanto sacrifício se justifica. Se você virar vegetariano pode ganhar alguns anos a mais. Mas será que vale à pena trocar os prazeres gustativos por um tempinho a mais de vida? Nem todos pensam assim. Tenho um amigo que é fumante compulsivo. Ele diz estar ciente dos riscos de contrair um câncer, mas não consegue fazer nada sem dar umas baforadas. Já tentou parar, mas concluiu que a vida não anda sem o veneno cilíndrico. Ele diz que se a doença maldita surgir ele dá um tiro no ouvido e adianta o encontro com a Morte, de forma rápida e sem alarde. Quem sou eu pra dar conselho? A vida é dele. Quanto a mim, até tento levar uma vida mais ou menos balanceada. Mas tô sempre caindo em tentação. Somos frágeis “pecadores”, quase sempre decaindo nas armadilhas dos desejos. Até consegui cortar alguns hábitos nocivos, mas não abro mão de alguns venenos. Por exemplo, sou dependente de café. O grão já foi muito criticado no passado. Diziam que fazia mal para os nervos e gerava uma insônia danada. Mas parece que a mídia mudou de ideia. Ultimamente andam elogiando muito e exaltando os benefícios do cafezinho. Segundo o que vem sendo divulgado, o café dá um “up” na inteligência, além de nos deixar ligados, dispostos e bem humorados. O Instituto Brasileiro do Café deve estar investindo muito em marketing. Quando isso acontece, costuma do veneno virar remédio em pouco tempo. Por falar nisso, acabo de ver uma propaganda da coca-cola. Muita gente divulga que o refri tem caloria demais, mas a coca já divulga que contém é energia para viver a vida. Questão de ponto de vista. E você. Vai acreditar em quem? Nos cientistas chatos que vivem prescrevendo proibições ou nas maravilhosas propagandas da coca? O marketing adora vender veneno. Freud explica. Tem a pulsão da morte, uma espécie de tendência suicida que nos acompanha desde sempre. Alguns a exercem de forma radical e vão às vias de fato. Se jogam de cima de pontes ou utilizam inacreditáveis clichês para dar cabo da vida. Outros se matam aos poucos num suicídio lento. Pra mim o que mata mesmo é a hipocrisia. As autoridades proíbem alguns venenos por considera-los prejudiciais aos indivíduos e a sociedade, mas qualquer um pode comprar refrigerantes, álcool ou mesmo soda-cáustica em qualquer supermercado ou drogaria. Só veneno liberado. Prejudicial mesmo é o consumo em excesso, o lixo que acumulamos por cair nas armadilhas do capitalismo, lixo que acumulamos tanto em nossos ambientes como em nós mesmos. E vou parando por aqui pra tomar uma xícara de veneno fumegante.Estão servidos?

Um comentário:

  1. Concordo com voçê,nesta crônica de veneno liberado.Mas tenho a acrescentar: e os venenos não liberados,mas utilizados indiscriminadamente por nós, tais como as drogas? E os venenos não liberados, das fumaças tóxicas,da poluição de chaminés,de automoveis,e outras mais que os governantes insistem em não ver?
    Ah!,no tempo de meus avós, não existia refrigerante,poluição cigarro industrializado,e outras coisas mais como conservantes alimentares,mas existia fumo de rolo, cobras,e outros animais que também matavam, como encontrar-se por exemplo com uma onça pintada. Quer veneno maior? Apenas mudamos os nossos jeitos de exterminio.

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