sexta-feira, 26 de julho de 2013

20 CENTAVOS ( e o menino herói da holanda)


Existe uma estória holandesa sobre um menino que salvou o país ao fechar o buraco de um dique com o dedo. A Holanda é um país cuja maior parte do território fica abaixo do nível do mar. Por isso, enormes muralhas chamadas diques impedem o Mar do Norte de invadir a terra, inundando-a completamente. Há séculos o povo se esforça para manter as muralhas resistentes, a fim de que o país continue seco e em segurança. Até as crianças pequenas sabem que os diques precisam ser vigiados constantemente e que um buraco do tamanho de um dedo pode ser algo extremamente perigoso. Pois o  nosso menino herói estava colhendo flores quando viu o buraco no muro, colocou seu dedo e chamou as pessoas, que vieram com pás, com terra e impediram uma catástrofe. Talvez os 20 centavos tenham sido o buraco do muro não tapado no Brasil. E agora não tem jeito mais. O muro já está irremediavelmente rachado. De repente, escancaradas ficaram as vísceras do país. E tudo por causa de 20 centavos.  Não taparam o buraco no muro. O povo começou a exigir mais do que geladeira cheia e empregos. Chegou à conclusão que o transporte público estava horrível, a educação caindo pelas tabelas, a saúde doente e a corrupção operante e impune, além da gastança com a copa do mundo, enquanto tantos padecem em dificuldades e desconforto público. O movimento foi como uma mistura de tsunami com terremoto e tufão para o governo Dilma. O povo resolveu fazer valer a letra de Arnaldo Antunes. “A gente não quer só comida”. A popularidade da presidente despencou. Dona Dilma resolveu tentar surfar na onda. Propôs reformas importantes. Mas houve rejeição. Talvez tenha sido interpretado como um ato afoito, oportunista do governo, por ser unipartidário, uma imposição ao invés de uma pauta consensada. Ninguém pôde tirar proveito das manifestações, que rechaçaram qualquer manifestação partidária. Mas quem mais perdeu foi quem tinha pra perder, que foi a Presidenta Dilma. Existem distorções também. Com toda beleza da democracia, com o orgulho nacional pela emergente cidadania redescoberta, nem sempre os movimentos tem razão. Há distorções por não haver certos aprofundamentos. Pra mim, o momento poderia e deveria ser melhor utilizado sim pra discutir a Reforma Política. É o nosso principal problema. E olha lá o que vocês vão fazer com esse negócio do marco civil da internet. Será que os cabeças das manifestações estão atentos a isso? Será que existe cabeça? Tem muita rebeldia sem nexo, descargas juvenis e proveito por delinquentes de toda ordem. Mas como me disse um amigo filósofo, não há revolução sem vítimas. As manifestações geram prejuízos para os graúdos e para os miúdos também. Os políticos vão insistir nos velhos métodos. Vemos alguns discursando e dizendo que estão ouvindo a voz das ruas. Ouvir é fácil. Difícil é decodificar seus sentidos. Os políticos estão se movendo para tentar se adaptar e atender as reivindicações, desde que protejam as cabeças e os privilégios. Vamos ver como virá a segunda leva de manifestações. Os avisos foram lançados. O muro está rachado e ninguém colocou o dedo no buraco, muito menos uma moeda de 20 centavos.

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