sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

MAQUIÁVEL


LOURDINHA E JUNIOR MORAVAM NA FAVELA. ELA ERA FAXINEIRA E ELE, CANTOR DE RAP. CERTO DIA, ELES NAMORAVAM  NUMA LAJE DA FAVELA, TENDO UMA LUA MARAVILHOSA NO CÉU. 

- Nossa, amor. Eu tô tão feliz...
- Mas por que?
- Sabe o que foi? Eu fui escalada pra limpar a sala do prefeito na prefeitura. Uma sala chique...
- Uai. Tá bom. Mas você vai ganhar alguma coisa com isso? Vão aumentar seu salário?
- Quê isso, amor...Não é qualquer uma que arruma a sala do prefeito, viu?
- Ah...eu acho isso muito inferior...é vc se curvar ao sistema, ser subserviente.
- Ah...eu não acho não. Eu vou ter oportunidade de crescer.
- Não sei não. Não tô gostando dessa ideia. Ouvi falar que esses prefeitos são uns depravados.
- Não esse de agora. É muito educado e respeitador. Ele trata a gente muito bem.
- Eles tratam bem mesmo, mas é pra amaciar a carne. Depois dão de cima. Principalmente uma novinha chocolate, gostosa que nem você.
- Nossa, você enxerga maldade em tudo.
- Não sou eu que enxergo maldade. Já vi falar de prefeito que tem mais de 20 filhos fora do casamento. Dizem que o poder dá um tesão danado.
- Pode ficar tranquilo amor. Você sabe que eu sou só sua, né? 
- E tem os outros assessores também que são uns safados.
- Amor, pode ficar tranquilo pois eu sei me defender. E eles estão me tratando muito bem. Teve um advogado que me deu até caixa de bombom.
- Tá vendo? Já estão querendo te comprar. Isso não vai acabar bem. 
- Relaxa, amor. Isso é apenas carinho. Ainda mais eles sabendo que eu namoro com você, que é um cara forte, inteligente e que tem até ficha na polícia. Eu quero ver se terão coragem de fazer alguma coisa. 
- Você vai ver é muita sujeira embaixo do tapete.
- Nossa, amor. Como é que você adivinhou? Lá tem um tapete enorme, uma mesa de vidro que até brilha e uns enfeites lindos...
- Tudo comprado com o nosso dinheiro.
- Ahh...e tem o computador dele e tem muitos livros. Inclusive achei engraçado pois tem um livro que parece ser de maquiagem.
- De Maquiagem?
- É sim. Eu li lá...é de um tal de Maquiável.
- Pelo amor de Deus, princesa. Não é Maquiável. É Maquiavel. Sílaba forte no vel.
- É mesmo? Você conhece esse maquiável?
- Não é maquiável...deixa eu te explicar. Maquiavel era o professor de pilantragens dos príncipes e reis. Esse livro que você viu é o manual de enganação dos políticos.
- Nossa. Ainda bem que nem comecei a ler, viu.  E eu gostei mais do Maquiável. Não é melhor?
- É. Pensando bem, maquiável tem tudo a ver. Não é comum os políticos maquiarem as cidades na época das eleições, maquiarem prestações de conta? É tudo maquiável mesmo. Nossa, linda. Agora eu inspirei. Isso dá letra de Rap. Olha a letra que bolei agora: Quem lê maquiavel, quer viver no céu, quer pegar e créu, quer beber só mel, quer comer pastel.
- Nossa...gostei...me deu uma vontade de comer pastel...
- Amor...o pastel da letra é outro...
- Depois. agora vamos lá embaixo que vou fritar uns pastel pra nós. Mas aqui, amor. Precisamos conversar sério.
- Sobre o quê?
- Se você quiser, posso conversar com o prefeito pra ele te empregar.  O Rap não paga nossas contas, né?
-Depois. Não quero conversar sobre isso agora. Agora eu quero é comer pastel.
- De que?
- De queijo, de carne e de cabelo...pela ordem..

Um comentário:

  1. Esse meu amigo Marcos Martino é realmente um Maquiavel na pena. Não sabia que escrevia tão bem, um veradeiro literato. Além de colocar as palavras nos devidos lugares ainda se derrete em belas figuras de sintaxe. Pastel de cabelo... hahahahahehe.

    Parabéns, Martino!

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