quarta-feira, 7 de março de 2012

POESIA FLORAL de MARIA DAS GRAÇAS GOMES

A poetisa Maria das Graças Gomes me presenteou com o seu livro Antomania, que para quem não sabe, significa Mania de Flores. A moça já editou 7 livros e está com dois projetos no forno. Segue abaixo uma das poesias do livro, uma das que colhi nas páginas-canteiro-jardins da poetisa. Ela faz cinema com a escrita. enho certeza que vão gostar.

SENDA

Cada manhã que tu vens,
neste rito incansável,
trazes o calor dos sóis
que o tempo inexistente ocultou

(pardal, meu pequenino visitante, que descobriu-me
pelo vidro quebrado da vidraçak
pelo vão do meu descuido!)

Pelo ato da tua ousadia
abriste em mim
um vão maior,
um vão do azul outrora
como um flash
na ingrata memória
(ingrata por fechar, lacrar em si
 os meus bens maiores)

Este teu ritmo que a ti foi cedido
por alguém de teus antepassados,
talvez quem sabe,
em grata coincidência
por aquele que conviveu
com a menina
que não conhecia
a prisão dos sapatos
e que dava nomes às brisas,
pelo vitral quebrado,
trouxe a destrava
a chave que alarga
os vãos azuis.

Toca cada objeto da cozinha,
da sala, do quarto com teu bico ingênuo.
Faz de poleiro a imponência das cadeiras, 
dos sofás, dos quadros e enfeites.
Traz no toque do teu bico
o natural, o simples,
o perdido,

Brinca com teus pés
na opulência das cortinas
que mascaram as janelas.

Salpica com tuas fezes
qualquer vestígio
de orgulho e arrogância
impostos nos objetos

Talvez teu toque, tuas fezes,teu bico,
tua ingenua sabedoria
possam transformar
o que há muito
perdeu a magia



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