sábado, 24 de março de 2012

CIDADE DORMITÓRIO ou DORMITÉRIO?


Outro dia, depois do SARAU MUSICAL que fizemos no SINDICATO, uma pessoa me abordou e travamos o seguinte diálogo.
- Martino,  não adianta ficar fazendo esses eventos culturais, meu amigo. O povo aqui não gosta destas coisas.
- Mas por que não? Você não gostou?
- Gostar eu gostei. Mas o povo daqui não vai nesse tipo de eventos mesmo. Nunca foi.
- Mas meu amigo, você está querendo me convencer que a cultura não floresce por aqui?
- Você captou. Essa é uma cidade dormitório, feita pros  funcionários da indústria dormirem.
- Mas não é tanto assim mais. Hoje a empresa emprega bem menos. A maioria na cidade trabalha no setor de serviços. É estatístico.
- Ah...não se engane. Não é bem assim. A economia local ainda gira em torno da indústria.
- Mas será que essa “cultura” não mudou um pouco?
- Mudou nada. A indústria antigamente queria e fazia com que as pessoas dormissem cedo para terem disposição para renderem mais no trabalho. Essa cultura ainda continua viva.
- Mas temos de mudar essa cultura, uai. Estamos tentando fazer alguma coisa...
- Mas não adianta, sô. Veja que nem o pessoal que é ligado na cultura veio. Cadê os escritores, os poetas, os artistas em geral?
- Ora. Talvez a data tenha sido infeliz.  Talvez a falha seja nossa, de não ter divulgado tanto.
- Eu não acho que seja isso. O povo agora só quer saber de política. Vai ser pior pra vocês. Daqui até outubro só se falará em política e a guerra vai ser feia.
- Mas então você quer dizer que a cultura tem de morrer até lá? Que não pode ter poesia, teatro, nem nada?
- Ter até pode. Mas não espere público. O povo a partir de agora vai querer é festa.
- Meu amigo. A cultura não pode acabar por causa da política. Obrigado pelos conselhos, mas não tem jeito, viu. Assim como o oficio da cigarra é cantar, parece que viemos a esse mundo para trabalhar com arte. Vamos adiante com nossos projetos, seja como for.
- Então tá bom. Continuem lutando contra os moinhos de vento.
- Mas você não gostou do que viu aqui?
- Gostei de algumas coisas sim...não de tudo...pode melhorar.
- Pois é. E vai melhorar. Hoje foi só o primeiro sarau. Realmente o povo está desacostumado. A maioria nem sabe o que quer dizer sarau.
- Não sei. Fico até com pena de vocês, da luta. Esse negócio não dá dinheiro. Acaba que o pessoal não continua. É a vida real, meu caro. Esse negócio de cultura não enche barriga.
- Mas que coisa. Por que você veio aqui, se tem tanto negativismo assim?
- Não é negativismo. É realismo. Não sei. Se pelo menos vocês levassem esse negócio para  as escolas? Não acha que a cultura tem de passar pelas escolas?
- É claro que sim. Estamos buscando outros caminhos mesmo. Temos convite para levar o Sarau para outros espaços.  Mas vamos tentar fazer essa ponte com as escolas também.
- Mas aqui. Vocês são muito sonhadores e tem de ter gente assim mesmo no mundo. Mas vou lhes  dar uns conselhos. Coloquem  alguma comida no meio, sei lá, uma feijoada, um churrasco. Mas só isso que vocês chamam de cultura, sinceramente, não dá ibope.
- Já viu aquela música dos Titãs? A gente não quer só comida!
- Mas vocês são teimosos mesmo, hein? Vou dar o último conselho então: Façam um festival de músicas de ninar. Essa é uma cidade dormitório. Não vai mudar nunca.
- Que nada. Vamos fazer festivais é pra despertar.  

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